É impossível ignorar a sensação de que a sociedade civil está sozinha neste país. Tem sido sintomático. É uma consciência que se instala e pode até não ser uma coisa negativa perante a evidente falta de coordenação, resposta e execução da parte do poder central.
Não vale a pena estarmos a listar e a criticar o que está a vista de todos. Estamos demasiado cansados para isso. Não vale a pena sequer perder um momento a pensar nisso. Estamos, infelizmente, habituados ao falhanço das instituições e das quem as regula. Habituados também à repetição de uma rotina de hesitações, má-gestão, e, ainda pior arrogância, distância, falta de noção e de humanidade.
Seja o pinhal a arder, a voar, ou a terra engolida pelas águas, a sensação de fragilidade, impotência e insegurança são confirmadas a cada crise, aflição ou problema. Os sucessivos governos e partidos procuram sempre e em primeiro lugar fazer política. Por isso temos um candidato de extrema-direita numa segunda volta para o maior cargo político do país; por isso temos reação lenta às catástrofes. Ninguém, quase ninguém procura consensos suprapartidários. A indicação é para justificar, não para solucionar. E a maior parte dos nossos problemas aí radica: na sedução do poder, no enriquecimento privado, na carreira diplomática paga a peso de ouro pela Europa. São vários os exemplos e é para continuar.
A contrariar tudo isto estão os autarcas nas ruas, os populares nos pavilhões, os civis a limparem estradas, os mestres de obras nos telhados, os músicos, os psicólogos, os pedreiros, os padeiros, os jornalistas, os motoristas nas redes, nas estradas, nos supermercados, nos escombros, nas valetas, em casa, ao telefone, ao computador, no mais perfeito e virtuoso exercício de autogestão, substituindo o Estado, outra e outra vez.
Sem burocracia, discursos, conselhos, comissões ou grupos de trabalho. A fazer. Somos nós a nossa própria rede. As famílias, os amigos, os fãs, os seguidores. E Portugal é isto. Estamos entregues a nós próprios. Ao trabalho porque que se faz tarde.
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