Os três concelhos que compõem a chamada região de Cister têm sido importantes impulsionadores do turismo no País, com um leque alargado de diversidade turística. Da serra ao mar, passando também pelo turismo religioso, gastronómico e outros, são vários os tipos de turismo existente neste território. Em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, o presidente do Turismo do Centro de Portugal [Rui Ventura] destacou o desenvolvimento de Alcobaça, Nazaré e Porto de Mós.
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REGIÃO DE CISTER (RC) > O turismo tem vindo a crescer na região Centro. Essa evolução também se sente de forma clara nos concelhos de Alcobaça, Nazaré e Porto de Mós?
Rui ventura (RV) > Sim. O turismo tem crescido de forma consistente em toda a região Centro e essa dinâmica é hoje bem visível nestes três concelhos, embora cada um apresente um grau de maturidade turística diferente. Quando olhamos para a última década, percebemos uma tendência sustentada de afirmação do Centro de Portugal como destino turístico, tanto no mercado nacional como nos mercados internacionais. Esse crescimento regional tem reflexo direto em territórios como Nazaré, Alcobaça e Porto de Mós, que hoje apresentam ofertas distintas, complementares e cada vez mais valorizadas..
RC > Que indicadores concretos sustentam essa leitura de crescimento?
RV > Os números são claros. À escala da Região Centro, as dormidas em alojamentos turísticos cresceram 65,4% na última década. Passámos de cerca de 5,1 milhões de dormidas em 2015 para 8,37 milhões em 2024. E os dados preliminares de 2025 apontam já para novo aumento, acima dos 8,48 milhões de dormidas, mesmo num ano marcado por condicionantes relevantes, nomeadamente os incêndios. Isto significa que a região consolidou a sua atratividade e tem demonstrado resiliência e capacidade para continuar a crescer.
RC > No caso específico da Nazaré, estamos perante um dos exemplos mais evidentes dessa evolução?
RV > Sem dúvida. A Nazaré é hoje um dos casos mais emblemáticos da afirmação turística do Centro de Portugal. Em 2024, o concelho registou 267 mil dormidas, o que representa um crescimento de 79,5% face a 2015. Os proveitos turísticos atingiram os 16,2 milhões de euros, mais 113,7% do que há uma década. Isto mostra não apenas um aumento de visitantes, mas também uma valorização económica muito significativa da atividade turística. A Nazaré tornou-se um destino com forte projeção internacional e isso tem impactos diretos na hotelaria, na restauração, no comércio também na economia local.
RC > O peso dos turistas estrangeiros é particularmente expressivo nesse concelho?
RV > É, e esse é um dos traços distintivos da Nazaré. Quase 60% das dormidas são asseguradas por mercados externos, o que revela um grau de internacionalização muito assinalável. Entre os principais mercados emissores encontramos Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Brasil. A projeção internacional associada às ondas gigantes teve aqui um papel decisivo. A Nazaré passou a ser reconhecida globalmente não apenas como uma vila costeira com identidade própria, mas como um símbolo mundial do surf de ondas grandes. Essa notoriedade teve efeitos muito concretos na procura turística, na ocupação do alojamento e até na valorização imobiliária.
RC > Alcobaça apresenta uma realidade diferente, mais ligada ao património e à cultura. Também aí os dados mostram um crescimento sólido?
RV > Claramente. Alcobaça tem registado uma evolução muito expressiva. Em 2024, contabilizou cerca de 128 mil dormidas, o que corresponde a um aumento de 68,4% em relação a 2015. No entanto, o dado que talvez melhor traduza a valorização do destino é o dos proveitos turísticos: cresceram 202,1% no mesmo período, atingindo os 8,9 milhões de euros. Isto significa que Alcobaça não está apenas a receber mais visitantes, está também a gerar mais valor económico a partir da sua oferta turística. Trata-se de um território com forte vocação cultural, patrimonial e identitária.
RC > O Mosteiro de Alcobaça continua a ser o principal motor dessa procura?
RV > Sim, continua a ser um dos grandes ativos do concelho e de toda a região. O Mosteiro de Alcobaça, classificado como Património Mundial da UNESCO, tem uma força de atração extraordinária. É um elemento central da afirmação de Alcobaça como destino cultural, a par de uma envolvente patrimonial, gastronómica e paisagística que enriquece a experiência do visitante. O mercado nacional continua a ter um peso importante, mas os turistas estrangeiros têm vindo a ganhar relevância, sobretudo oriundos de Espanha, França, Alemanha e Estados Unidos da América.
RC > E quanto a Porto de Mós? Sendo um concelho com menor dimensão turística, o crescimento parece ainda mais expressivo em termos relativos.
RV > Porto de Mós parte de uma base mais reduzida, mas é precisamente por isso que o seu crescimento relativo merece destaque. Em 2024, o concelho atingiu cerca de 23,3 mil dormidas, o que representa um aumento de 187,4% face a 2015. Também os proveitos turísticos cresceram de forma assinalável, chegando aos 1,4 milhões de euros, mais 128,7% do que há uma década. Estes números mostram que Porto de Mós está a afirmar-se progressivamente no mapa turístico regional, muito apoiado numa proposta ligada ao turismo de natureza e ao turismo ativo.
RC > Podemos dizer que Porto de Mós responde a uma procura cada vez mais interessada em experiências ao ar livre?
RV > Essa é uma das suas maiores valias. Porto de Mós tem condições muito próprias para captar visitantes que procuram contacto com a natureza, percursos pedestres, experiências ligadas às serras e uma vivência mais tranquila e autêntica do território. A procura é ainda maioritariamente nacional, mas há mercados estrangeiros em crescimento, como Espanha, França, Alemanha e Austrália. Isso mostra que há um nicho de procura com potencial para continuar a expandir-se.
RC > Apesar das diferenças entre estes três concelhos, há um padrão comum que permita falar de uma tendência consolidada?
RV > Sim, há um denominador comum muito claro. Nazaré, Alcobaça e Porto de Mós têm perfis diferentes, produtos turísticos distintos e níveis de notoriedade diversos, mas todos evidenciam crescimento sustentado da procura, aumento significativo dos proveitos e uma presença cada vez mais relevante de turistas estrangeiros. A Nazaré destaca-se pela forte internacionalização e projeção mediática associada ao mar e ao surf. Alcobaça afirma-se pela dimensão patrimonial, cultural e histórica. Porto de Mós evidencia-se pela natureza, pelo turismo ativo e pela autenticidade. São três expressões diferentes do mesmo fenómeno: o fortalecimento do turismo no Centro de Portugal.
RC > Esse crescimento representa também uma oportunidade de desenvolvimento para estes territórios?
RV > Sem dúvida. O turismo, quando é bem planeado e valorizado, é um motor importante de desenvolvimento económico, social e territorial. Gera emprego, cria oportunidades para as empresas locais, dinamiza o comércio, a restauração e o alojamento. O desafio está em garantir que este crescimento continua a ser sustentável e capaz de preservar aquilo que torna cada destino único. É isso que permitirá que concelhos como Nazaré, Alcobaça e Porto de Mós continuem a crescer sem perder a sua identidade.


