Imagine correr oito quilómetros, mas nunca de uma vez. A cada quilómetro, tem de parar e enfrentar uma estação de exercícios que vai colocar o corpo à prova: trenó para empurrar, remo, burpees, sacos de areia para carregar. E depois? Voltar a correr. Oito vezes seguidas.
Este conteúdo é apenas para assinantes
Denomina-se Hyrox e é uma modalidade criada em 2017, na Alemanha, por Christian Toetzke, que une o desafio da resistência da corrida ao treino funcional, acessível a vários perfis de atletas e replicável em qualquer parte do mundo. A fórmula é simples, mas exigente: oito quilómetros de corrida, divididos por etapas de um quilómetro, intercalados com oito estações de exercícios como trenó, remo, passadas com carga, burpees e arremessos de bola. Vence quem terminar mais rápido. Mas apesar de ser uma competição, a modalidade é amplamente conhecida pelo seu espírito de entreajuda e ligação entre entusiastas.
O interesse pelo Hyrox tem sido crescente em todo o mundo e Portugal não é exceção: nos últimos anos, ginásios e boxes de norte a sul do País têm organizado treinos e eventos inspirados na modalidade, com inscrições a esgotarem em poucas horas. Todavia, chegar à linha de partida exige uma preparação ao detalhe: controlo de ritmo, força nas pernas e no core, e trabalho de mobilidade para evitar lesões. E na região, a moda também pegou. São vários os atletas que decidiram superar-se na primeira prova oficial do género em Portugal, que decorreu na FIL, em Lisboa, de 1 a 3 de maio.
Beatriz Vaz, de 29 anos, de Alcobaça mas atualmente a residir em Lisboa, participou com a amiga, Margarida, de 27. Já corriam juntas há alguns anos e tinham já feito a primeira maratona em outubro de 2024. A alcobacense conheceu o Hyrox através de influenciadores de fitness e, atraída pela mistura de corrida e força num só treino, decidiu que seria algo a experimentar. E, depois da experiência, sublinha a importância de ter uma parceira nesta jornada: “Na prova é ótimo ter alguém que me obriga a continuar, mesmo que o cérebro diga várias vezes para parar”, nota.
Sem um plano rígido, combinaram dois treinos de corrida por semana, um a dois de Hyrox em circuito e dois apenas de força. No dia da prova, o cuidado com a alimentação fez a diferença. Não foi fácil, mas foi altamente gratificante: “Passei metade da prova a questionar as minhas escolhas de vida, mas terminar foi das melhores sensações do mundo”. Disse optar por não olhar para o relógio durante a prova e, no final, ficou até surpreendida com o tempo. O remo e o sled pull foram a estação menos preferida; sled push e farmer’s carry lideram o gosto da dupla. Já pensam na próxima prova – “quem sabe Paris” –, e deixam o aviso: “Vai custar? Vai e vais questionar a tua sanidade mental várias vezes durante a prova. Mas a sensação ao acabar bate tudo”, sublinha.
Já a nazarena Rita Duarte, de 25 anos, foi “influenciada” pelo namorado a experimentar a modalidade. Em Lisboa competiu ao lado da amiga e nutricionista Filipa Custóias: “Acho mesmo importante termos ao nosso lado alguém que nos puxe, motive e torne a experiência mais divertida”. Nunca treinaram juntas, mas no dia da prova estavam sincronizadas.
“Foi incrível, o ambiente da prova é muito bom. E no fim ficámos com a sensação de desafio cumprido”, resume. Houve um momento de tensão, ao pensarem ter falhado uma linha no sled pull, mas tudo se resolveu, e terminaram “de mãos dadas e com um abraço”, melhor ainda quando perceberam que tinham feito um tempo superior ao esperado.
Os sandbag lunges foram a estação mais difícil, o sled push, a preferida. Já pensa na próxima edição, “para o ano à mesma hora”, e deixa um convite a quem hesita: “Inscrevam-se, é uma experiência desafiante e incrível”, apela.
Por sua vez, Ana Filipe, de 28 anos, e Miguel Cruz, de 30, ambos da Boieira, no Juncal, têm uma ligação quase umbilical ao desporto, ela na patinagem artística e no futebol antes do gosto pelo ginásio e CrossFit, ele na natação federada do Sporting e depois no rugby. O contacto com o Hyrox nasceu nas redes sociais e ganhou forma quando o ginásio de Ana abriu aulas específicas da modalidade. A treinadora, notando a evolução do casal, desafiou-os a inscreverem-se no Hybryd Day, em Aveiro, em janeiro, uma prova de Hyrox, ainda que não oficial, como a que decorreu em Lisboa.
“Há momentos em que o apoio mental conta tanto quanto a preparação física”, diz Ana sobre competir ao lado do namorado. A preparação, inicialmente limitada a duas aulas semanais, tornou-se mais organizada depois da primeira prova, com mais treino de corrida, já que o cardio “pesa” cerca de 80% da prova, sem descurar a musculação”. E, desde que começou a fazer provas de Hyrox, treina todos os dias.
O dia da prova é “uma mistura de nervosismo, adrenalina e entusiasmo”. O momento mais difícil foi na primeira prova, nas wall balls, quando Miguel começou a sentir-se mal, contudo, o mais marcante foi a evolução entre provas – 0150m de 1h22m para 1h09m. Wall balls e sled push continuam a ser as estações mais difíceis e farmer’s carry e lunges as preferidas. O casal realizou recentemente a sua terceira prova, no Hybrid Day, em Leiria, nos dias 17 e 18 de julho. O conselho a quem tem dúvidas: “Ninguém precisa de ser ‘perfeito’ para participar”.
Já as alcobacenses Soraia e Josiane, com 30 e 34 anos, respetivamente, são amigas há 11 anos e partilham o percurso: federadas em atletismo e ativas nos desportos escolares até ao secundário, só voltaram à corrida há cerca de três anos, primeiro em trails e depois em treinos funcionais com o personal trainer Édipo Santos, que tem um espaço próprio. A ideia do Hyrox “começou por brincadeira”, até se tornar num “assunto sério”.
Inscreveram-se para experimentar algo diferente e testar limites. Da parceria destacam: “É a força que a nossa parceira nos dá que nos faz não desistir”. A preparação equilibrou corrida, força e treino funcional, com treinos específicos das estações, sendo que, em retrospetiva, dariam mais atenção à “corrida em fadiga e à gestão de ritmo”.
O dia da prova foi “intenso desde o primeiro minuto”, com nervos que depressa deram lugar ao “modo prova” e momentos duros compensados pelo apoio mútuo. A etapa mais difícil foram os primeiros quilómetros de corrida, ao passo que o mais marcante foi perceberem que continuavam a puxar uma pela outra até ao abraço final. Satisfeitas com o resultado, e tal como Ana e Miguel, participaram no Hybrid Day de Leiria. O recado é simples: “Não é preciso ser atleta profissional para participar. A sensação de conquista compensa todo o esforço e receio”.
O treinador de Soraia e Josiane, Édipo Santos, acompanha a dupla há cerca de 11 meses, com preparação específica de Hyrox nos últimos três. Refere que a modalidade exige uma preparação “muito completa”, desde resistência, potência, recuperação e consistência mental, uma vez que obriga o corpo a manter o rendimento com fadiga acumulada. Destaca o compromisso das duas atletas: “Foram atletas muito disciplinadas, consistentes e disponíveis para sair da zona de conforto”, atirou. A prova de Lisboa deixou a sensação de que havia margem para mais, o que as levou a inscrever-se na vertente “Pro” do Hybrid Day de Leiria, com cargas superiores às da prova anterior. E que cumpriram, também, com sucesso.
Entre suor, cronómetros e abraços na linha de chegada, as histórias atrás contadas mostram que o Hyrox já não é uma novidade. É uma realidade que também se treina, em que se sofre e se celebra na região. E com competições deste tipo a multiplicarem-se na região, vários destes nomes [e tantos outros] voltam a colocar-se à prova, prontos para ver até onde o corpo e a cabeça os conseguem levar. Porque o maior desafio, é aquele que faz “transpirar” e “sacrificar”. E, no final, faz pensar “afinal, sou capaz!”.


