Sábado, Fevereiro 28, 2026
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E agora, José?

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Em 1942, um dos maiores poetas da língua portuguesa, o brasileiro Carlos Drummond de Andrade, escreveu “José”, um dos seus muitos geniais poemas:
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Este poema (de que a parte citada é apenas uma das seis estâncias) leva-nos ao ano de 1942. O “José” vivia num contexto muito diferente do atual: apogeu da II Guerra Mundial, ditadura militar de Getúlio Vargas… No entanto, o génio consiste exatamente nisso, em extrapolar de casos particulares uma significação universal. 
Ao nascer, eu não tinha muito mais a esperar do que o José de Drummond. Pouco tempo depois do nascimento, o meu pai, bom contador de histórias, ainda me falou das filas de alimentos para que ele, ou o meu avô, ia, à procura de bens que a terra não dava: bacalhau, azeite, arroz… E, pouco depois, tive a “aparição” da guerra, do outro lado do mar, assim como constatei  que uma das músicas obrigatórias, na festa da aldeia, era, não sei de quem, um quase-hino que dizia “Angola é nossa!” Nada de mais: tinha nascido com “as nossas colónias”, com um “Portugal de aquém e de além-mar” e quando, em 1961, a União Indiana invadiu Goa, ter-me-ei juntado ao coro dos que vituperaram Nehru.
Porém, com o andar do tempo, comecei a notar algumas coisas estranhas – fosse, ou não, “ditadura” o nome da coisa. Na verdade, não se podia dizer certas coisas, e parecia não haver entre nós o que se ouvia falar de França e de Inglaterra, por exemplo: partidos e eleições. Lembro-me, muito difusamente, de o meu pai ter recebido uma carta para “meter o voto”. Mas nem toda a gente recebia esse convite. 
Tudo mudou, todavia, quando um dos “filhos da terra” voltou “numa caixa de pinho”, como cantava, gemendo, Adriano Correia de Oliveira. A partir dessa altura, eu, que queria ser missionário, estava decidido em escapar à guerra: ou como padre ou como desertor.
Isto tudo para dizer que este José, mercê da sua “idade avançada”, poderia ter feito, por volta de 1962, quando entrou na escola, perguntas análogas às de Drummond.
Porém, em 1974, tinha eu 19 anos, houve um facto extraordinário. Descontemos tudo o que correu mal, porque quase tudo correu bem com o “25 de abril”. Os humildes silenciosos puderam dizer que não queriam morrer a defender ditames de uma pátria autista e madrasta que os condenava, em muitos casos, a voltar em “caixas de pinho”. E, ainda mais importante: todos os alunos poderiam estudar. Construíram-se escolas e mais escolas, cada vez mais perto de casa, arrancando os mais desfavorecidos a um ciclo de servidão e dependência.
Por isso, sentindo-me abençoado por ter nascido numa sociedade decente, que me confere o direito de, aos 66 anos e 45 anos de serviço, ter direito a uma retribuição digna, vou perguntar se esta sociedade ainda precisa de mim. E, na ausência de resposta, vou apresentar propostas.
E agora, José?
Tranquilo, Drummond!

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