“O meu sonho é mesmo poder levar as crianças a ler nos recreios, ao pé das árvores, nos bancos, na relva. O livro é uma companhia para sempre, que podem levar para a vida.” Quem o afirma é Vanda Furtado Marques, escritora de literatura infantil. E foi com este sonho bem presente que nasceu o Fluência Leitora – um projeto que decorre em vários estabelecimentos do Agrupamento de Escolas de Cister e que tem como missão despertar o gosto pela leitura nas crianças do 2.º ano de escolaridade. Mas para perceber o projeto, é preciso perceber primeiro a mulher que lhe deu vida.
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Em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, Vanda Marques conta que a paixão pelos livros foi cultivada por quem a rodeou desde criança. Para a autora, um livro nunca foi apenas papel e tinta: é uma forma de arte, de aprender o que às vezes a vida não ensina, de tornar compreensível aquilo que, no mundo real, parece demasiado pesado. É uma fonte de conhecimento, de experiências, de cultura. Quando se apercebeu de que muitos alunos chegavam ao 5.º e 6.º ano incapazes de interpretar um simples enunciado de teste, a urgência fez-se sentir. “A resposta foi intervir mais cedo, no 2.º ano, fase em que a fluência leitora é ainda maleável e determinante para todo o percurso académico futuro”, explica.
A proposta chegou à diretora do agrupamento, Manuela Lourenço, e foi recebida de braços abertos – não fossem as duas mulheres que partilham a mesma convicção: os livros são ferramentas essenciais de aprendizagem para a vida. De um lado, uma diretora que acredita que os livros são ferramentas de vida. Do outro, uma professora para quem a leitura nunca foi apenas uma disciplina – foi sempre uma forma de estar no mundo. Juntas, perceberam que tinham nas mãos algo mais do que um projeto curricular. Tinham uma oportunidade de mudar hábitos, despertar imaginações e semear leitores para a vida.
O projeto arrancou em abril de 2025 nas escolas de Évora de Alcobaça, da Póvoa e do Bárrio. No presente ano letivo, as sessões decorrem no Centro Escolar de Alcobaça e nas escolas da Maiorga e do Carvalhal de Aljubarrota. Em pequenos grupos, três vezes por semana, há leitura em voz alta, exploração de vocabulário e descoberta. Vivem-se as palavras. Partilham-se risos entre colegas, curiosidades de quem está ainda a conhecer o mundo, perguntas sem fim. O contacto com o livro é quase ritualizado e a escolha dos textos não é deixada ao acaso: letras redondas, pouco texto, histórias que tocam as emoções e convidam à reflexão.
Em cada sessão, cada criança lê ao seu ritmo, com o seu momento. “Não há pressa. Há escuta. E quando necessário, uma orientação suave na entoação, um olhar atento ao respeito pela pontuação, uma mão que guia sem retirar a voz a quem lê. O objetivo não é a perfeição técnica. É a descoberta. Que cada criança sinta, na própria voz, a diferença entre uma leitura hesitante e uma leitura que flui”, conta Vanda Marques.
Mas há um elemento do projeto que, confessa a dinamizadora, tem capturado a imaginação das crianças de uma forma especial: o Gatinho Leitor. Um peluche que se tornou a mascote do Fluência Leitora e que viaja com cada criança dentro de um saquinho especial, acompanhado dos livros escolhidos para levar para casa. Um peluche que torna também as famílias cúmplices desta aventura.
Os resultados não tardaram a aparecer. O projeto, que abrange atualmente 48 alunos, mostra resultados animadores. Os dados internos revelam melhorias significativas na fluência, na precisão leitora e na confiança com que as crianças enfrentam um texto. “Crianças que se recusavam a ler passaram a perguntar diariamente que livro iriam explorar. Houve quem chegasse sem conhecer o alfabeto e hoje leve o saco da leitura para casa com orgulho visível”, afirma. São estas transformações silenciosas que mais emocionam Vanda Marques. “Ver as crianças a crescer com a leitura e com as conversas que se criam em redor dos livros é tão bonito… que por vezes me emociono. Crianças que no início do ano mal conseguiam juntar as letras chegam hoje às sessões com curiosidade nos olhos, querendo saber qual o livro do dia. Pegam neles com vontade. Abrem-nos por antecipação. Leem porque querem, não porque têm de o fazer”. E numa sociedade cada vez mais acelerada e digitalizada, ver uma criança pegar num livro como se fosse um tesouro é, para a escritora alcobacense, a prova de que “o livro e a leitura fazem milagres”.
No fundo, ensinar uma criança a gostar dos livros não é apenas ensiná-la a ler. É abrir-lhe uma porta para um mundo de cultura, de arte e de literatura – um mundo que, lado a lado com a vida, transforma, molda e acrescenta. Uma porta que, uma vez aberta, nunca mais se fecha.


