Segunda-feira, Março 9, 2026
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O Natal e o bolo de noz da minha tia

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O bolo de noz não faz parte de nenhuma tradição natalícia que conheça, mas não imagino um Natal sem o bolo de noz da minha tia.

Gosto muito daquele bolo, mas o que realmente me emociona são as lembranças que vêm agarradas ao caramelo que cobre o bolo: o cheiro e o estalido da lenha a queimar, a algazarra em volta da mesa e, inevitavelmente, o fim da noite em volta do velho monopólio. Podíamos ter acabado de receber mil e um brinquedos, mas era sempre o monopólio que nos sossegava, apesar de nunca termos conseguido, ou, sequer desejado, terminar uma partida de monopólio. Ninguém queria saber quem ganhava e nunca ninguém esperou acabar o jogo: o melhor era sempre o início, quando colocávamos as cartas, dividíamos as notas e escolhíamos os peões. Depois, era inevitável que alguém virasse o tabuleiro, espalhando os investimentos imobiliários, ou um dos primos caísse, ensonado, para dentro da caixa do banco, misturando todas as nossas fortunas.

O Natal dos nossos dias é tão luminoso, tão rico em imagens e em símbolos de todas as cores, formas e feitios, que é impossível não identificar as mensagens comuns e essas por serem tão excessivas, passam rapidamente à banalidade. A publicidade no Natal apela sempre às emoções, as autoridades competem pelo tamanho e originalidade das luzinhas que enfeitam as ruas, há disputas pelo melhor doce ou o presépio mais original. Mas o que realmente nos aproxima dos nossos são aqueles símbolos, aquelas memórias e aqueles rituais que, em forma de caminhada até à missa do galo, de jogo repetido ou de bolo partilhado,  perpetuam os valores que celebramos intimamente e contribuem para nos construirmos.

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Estas lembranças são a maior riqueza do Natal. Como um bolo de noz que só a minha tia sabe fazer ou uma caixa de banco do monopólio que se mistura quando o sono cai, e já não é essencial saber quem é mais rico, nem quem tem mais propriedades, casas ou hotéis, e quando já não interessa saber quem tem de voltar para a prisão sem passar pela casa de partida. Confesso-vos que para mim, o Natal só acontece realmente, quando se misturam as fortunas.

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