Domingo, Novembro 8, 2026
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A Maria e o Padeiro

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A Maria, nome da minha crónica ficcional, trabalha em estética e é mãe de 3 filhos. A mais nova vive ainda com ela e com o companheiro, padeiro. Pagam 600 euros por dois quartos numa casa no distrito de Lisboa, “já com as despesas incluídas”. O sonho era alugar uma casa, “mas com as despesas um T2 ia chegar a 1000 euros”. Trabalha como esteticista num grande centro comercial, ganha o salário mínimo, 10 horas por dia, com uma 1 de almoço, e folga 1 vez por semana.

Começa no shopping ao meio dia e termina às 10 da noite, mas faz sempre umas horas extra num cabeleireiro de bairro de manhã onde entra às 9 da manhã – se contarmos a ida e vinda do trabalho são 15 horas por dia 6 dias por semana dedicadas ao trabalho, 84 horas por semana. O INE diz-nos que metade dos portugueses trabalham até 70 horas – não contam aqui o que fazem como biscate para conseguir pagar contas. Ambos os trabalhos de Maria foram encerrados, argumentando o Governo que isso diminuiria o contágio. Para ela não –  o companheiro é trabalhador essencial de um supermercado, a padaria, pelo que está sempre a trabalhar e em contacto diário com milhares de clientes num espaço fechado sem ventilação natural. A filha está no ensino secundário público e sonha ser arquiteta. Sonhava. Sair da reprodução social da pobreza, esse lugar onde filho de esteticista, esteticista será.

A Maria no primeiro confinamento em março recebeu 210 euros num mês, porque só conta o que foi descontado legalmente; em janeiro deste ano, depois do novo confinamento, foi avisada pela Segurança Social que receberia cerca de 110 euros, “eles acham que vivemos disto?”. A filha, depois de março, teve pela primeira vez negativas, duas, uma delas a geometria descritiva – não vai ter média para entrar na Universidade. A escola avaliou o período como “normal”. A Maria, que entrega 15 horas por dia ao trabalho, não pode pagar explicações privadas e está dependente ou do companheiro ou de trabalhar ilegalmente. O companheiro era padeiro numa pastelaria de uma zona nobre, onde aliás se servem os melhores croissants do bairro. Ganhava o ordenado mínimo, mais 20% que o patrão lhe pagava “por baixo da mesa”, foi assim 9 anos. Ele indignou-se com o corte, e saiu, “caramba um homem tem dignidade!” – empregou-se numa cadeia de supermercados, onde recebe o salário mínimo.

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Nos EUA 75% dos americanos que não têm ensino superior nunca pararam de trabalhar, porque estão em trabalho essencial e industrial. Em Portugal mais de metade dos portugueses nunca parou de trabalhar. Quando a Maria for ao passeio marítimo apanhar sol alguém lhe vai gritar “criminosa!, vou chamar a polícia”.

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