Quarta-feira, Janeiro 14, 2026
Quarta-feira, Janeiro 14, 2026

A Maria e o Padeiro

Data:

Partilhar artigo:

A Maria, nome da minha crónica ficcional, trabalha em estética e é mãe de 3 filhos. A mais nova vive ainda com ela e com o companheiro, padeiro. Pagam 600 euros por dois quartos numa casa no distrito de Lisboa, “já com as despesas incluídas”. O sonho era alugar uma casa, “mas com as despesas um T2 ia chegar a 1000 euros”. Trabalha como esteticista num grande centro comercial, ganha o salário mínimo, 10 horas por dia, com uma 1 de almoço, e folga 1 vez por semana.

Começa no shopping ao meio dia e termina às 10 da noite, mas faz sempre umas horas extra num cabeleireiro de bairro de manhã onde entra às 9 da manhã – se contarmos a ida e vinda do trabalho são 15 horas por dia 6 dias por semana dedicadas ao trabalho, 84 horas por semana. O INE diz-nos que metade dos portugueses trabalham até 70 horas – não contam aqui o que fazem como biscate para conseguir pagar contas. Ambos os trabalhos de Maria foram encerrados, argumentando o Governo que isso diminuiria o contágio. Para ela não –  o companheiro é trabalhador essencial de um supermercado, a padaria, pelo que está sempre a trabalhar e em contacto diário com milhares de clientes num espaço fechado sem ventilação natural. A filha está no ensino secundário público e sonha ser arquiteta. Sonhava. Sair da reprodução social da pobreza, esse lugar onde filho de esteticista, esteticista será.

A Maria no primeiro confinamento em março recebeu 210 euros num mês, porque só conta o que foi descontado legalmente; em janeiro deste ano, depois do novo confinamento, foi avisada pela Segurança Social que receberia cerca de 110 euros, “eles acham que vivemos disto?”. A filha, depois de março, teve pela primeira vez negativas, duas, uma delas a geometria descritiva – não vai ter média para entrar na Universidade. A escola avaliou o período como “normal”. A Maria, que entrega 15 horas por dia ao trabalho, não pode pagar explicações privadas e está dependente ou do companheiro ou de trabalhar ilegalmente. O companheiro era padeiro numa pastelaria de uma zona nobre, onde aliás se servem os melhores croissants do bairro. Ganhava o ordenado mínimo, mais 20% que o patrão lhe pagava “por baixo da mesa”, foi assim 9 anos. Ele indignou-se com o corte, e saiu, “caramba um homem tem dignidade!” – empregou-se numa cadeia de supermercados, onde recebe o salário mínimo.

Região de Cister - Assine Já!

Nos EUA 75% dos americanos que não têm ensino superior nunca pararam de trabalhar, porque estão em trabalho essencial e industrial. Em Portugal mais de metade dos portugueses nunca parou de trabalhar. Quando a Maria for ao passeio marítimo apanhar sol alguém lhe vai gritar “criminosa!, vou chamar a polícia”.

AD Footer

Artigos Relacionados

Frederico Santos: “Objetivo é afirmar o Cister SA como referência nacional na formação”

Com um notável currículo no andebol, Frederico Santos assumiu a coordenação técnica do Cister SA no início...

Natércia Inácio publica novo conto que promove leitura, saúde e inclusão

Cerca de quatro anos depois de lançar “A Sereia Isobella”, Natércia Inácio está de regresso com mais...

Rafael Alves vence 13.ª edição do The Voice Portugal

Rafael Alves, da equipa de Sónia Tavares, foi o vencedor da 13.ª temporada do programa The Voice Portugal....

Empresas de Alcobaça batem recorde histórico de exportações

 O concelho de Alcobaça registou, em outubro de 2025, o valor mensal mais alto de exportações desde janeiro...

Aceda ao conteúdo premium do Região de Cister!