Quarta-feira, Maio 29, 2024
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O pintor que fez da cerâmica e da azulejaria uma “tela” da vida

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Foi de pincel na mão que Luís Sacadura desenhou o trajeto de uma vida particularmente preenchida. Disputado pelas grandes fábricas de cerâmica de Alcobaça entre as décadas de 1960 e 1980, foi nos azulejos que encontrou a grande paixão. Aos 49 anos, o pintor foi desafiado pela Embaixada dos Estados Unidos para atravessar o Atlântico e ensinar aquela arte. Gostou tanto da terra do Tio Sam que acabou por lá ficar durante duas décadas. E, mesmo tendo tido outras ocupações profissionais, os pincéis e as tintas acompanharam-no até aos dias de hoje. Já reformado, o alcobacense mantém a atividade no estúdio que criou na Vestiaria. 

Filho de um operário vidreiro (e sapateiro nas horas “vagas”) e de uma doméstica, o irmão mais velho foi “obrigado” a deixar os estudos para ajudar no sustento da família. “Não tive nem uma semana de férias depois de sair da escola”, recorda o alcobacense, que nasceu na Rua do Castelo e que se mudou com os pais para a Vestiaria quando tinha 2 anos. Depois de uma curta experiência na loja de ferragens em Alcobaça quando tinha apenas 11 anos, deu nas vistas a fazer uns desenhos e foi convidado a ir para a Vestal, onde foi um “discípulo” do pintor Luís Silva, também conhecido por “Luís Coxo”. “Era uma pessoa diferente e respeitado por todos, aprendi muito com ele”, conta o antigo empregado fabril, que acabaria por ser “cativado” para ir trabalhar para a Raul da Bernarda, em Alcobaça. 

Durante o dia trabalhava, à noite estudava. Tinha 14 anos quando se inscreveu no curso industrial na Escola Técnica de Alcobaça, porque “havia uma disciplina de desenho”. “Foi muito útil. Se não tivesse aprendido alguma coisa de perspetiva, a coisa hoje não saía assim”, reconhece o pintor. 

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O percurso profissional na cerâmica acabaria por ser interrompido para cumprir o serviço militar. Um trajeto que lhe permitiu participar no levantamento militar do 16 de Março: “Estava a tirar o curso de sargento nas Caldas quando fomos para Lisboa e tivemos de voltar para trás”, relembra Luís Sacadura, que, apesar de não ter tido “muitos problemas” com a tentativa de golpe ainda ficou preso um dia. 

Regressa a casa, no final de 1975, já casado com a maiorguense que lhe roubou o coração na praia da Nazaré, e volta a arregaçar mangas no setor da cerâmica: “fui convidado para ser chefe de equipa na secção de pintura  da Raul da Bernarda, quando trabalhava por ‘empréstimo’ dessa firma na SPAL, e mantive-me por lá uns anos, que coincidiu com o grande boom da cerâmica em Alcobaça”. Depois disso, Luís Sacadura começou “a ser muito solicitado”, que é como quem diz “a ser acenado com bons ordenados”, recorda, entre risos. Passou por várias fábricas — “muitas já desapareceram” —, e quando estava na Moitalina surgiu um convite para ir para um ateliê de pintura de azulejo no Juncal. “Foi realmente ali que descobri que também tinha vocação para pintar azulejo”, explica o pintor responsável pelos grandes painéis de azulejos junto ao cemitério do Juncal.

Entre a “tela” da cerâmica e do azulejo, recebe um convite inesperado da Embaixada dos Estados Unidos para ensinar a arte da pintura em terras do Tio Sam. “Achei aquilo muito tentador. Agarrei nos catálogos e fui à Embaixada a Lisboa, ficaram com os catálogos e disseram para regressar no prazo de duas semanas. Fizeram-me depois inúmeras perguntas técnicas, respondi a tudo e deram-me um visto por dois anos”, recorda o alcobacense, que, já com os dois filhos criados, atravessou o Atlântico com a intenção de lá ficar “quatro ou cinco anos a ganhar dinheiro” para depois regressar a casa. Acabou por ficar quase duas décadas, “aterrando” no estado do Connecticut. Desenvolveu vários projetos, fez exposições importantes e tentou ganhar a sorte na pintura de azulejos, mas acabou por ter mais sorte no… casino. “Como a cerâmica não estava a dar-me o dinheiro que precisava, procurei outra atividade complementar”, explicou.  

Regressaria a Alcobaça (e aos azulejos) com dupla nacionalidade, depois de pedir os papéis para a reforma nos Estados Unidos. Por cá, transformou a garagem de casa num pequeno estúdio, onde “às vezes trabalha dez horas por dia, outras duas”. Ao som dos pincéis e da rádio, vai pincelando os trabalhos que lhe pedem (“sem prazos”) e quando não gosta do resultado final assina como LS em vez de Luís Sacadura.

De jardineiro a supervisor num casino na América

Sem saber falar uma única palavra em Inglês, embarcou na aventura de emigrar, aos 49 anos, para os Estados Unidos, ao lado da mulher e com a ajuda de um primo, que também estava emigrado em terras do Tio Sam. Foi para ensinar a arte de pintar azulejos, mas acabou como supervisor de um casino.

O convite tinha partido da Embaixada dos Estados Unidos, mas Luís Sacadura ficou por sua conta. “Eles queriam-me lá, mas não me queriam ajudar“, lembra o alcobacense, que acabaria por criar uma sociedade com o primo. “Eu pintava e ele fazia a divulgação do trabalho, aceitava encomendas e vendia os trabalhos”, conta.

Para isso, montaram um estúdio de raiz e participaram em diversas exposições, onde todos os trabalhos foram vendidos. O pintor de azulejos chegou a ser entrevistado pelo jornal Luso Americano e “até da ONU” recebeu encomendas, mas foi percebendo que “o americano gostava do trabalho, mas só comprava barato” e, por isso, aceitou o repto de um vizinho para ir… ao Foxwoods Resort Casino que estava a “meter gente”. 

Entrou como jardineiro, mas nunca plantou uma flor. Esteve dois anos e meio como empregado do casino a limpar as máquinas até ser chamado pelos “bosses”: “olharam para mim e disseram-me ‘os clientes adoram-te, aprendeste Inglês rápido, estamos a precisar de alguém para fazer férias de um supervisor e tu podes fazer esse trabalho’”. Foi “um sonho tornado realidade”, confessou, e três meses depois informaram-no que ia passar a ser supervisor a tempo inteiro.

Foi durante muito tempo o único português, a par da mulher (Alice), entre os trabalhadores de 24 nacionalidades. “Nunca me senti descriminado. Pelo contrário, os portugueses eram muito respeitados e queridos pelos americanos”, garantiu. 

Admite não ter sido “o emigrante típico”, que só trabalha para amealhar. “Gozei bem a vida, tinha boas férias e gostei muito de estar nos Estados Unidos”, reconhece Luís Sacadura, apontando para a bandeira americana que tem exposta no estúdio, ao lado da bandeira portuguesa. 

Faltavam seis meses para a reforma quando pediu os papéis e percebeu que tinha vantagens em pedir a nacionalidade americana. “Tive de fazer um teste e sabia mais da história americana do que muitos americanos”, aponta o homem, que se tornou também americano quando regressou a Portugal. 

Este artigo e podcast foram apoiados
pelo fundo de jornalismo europeu
“Local Media for Democracy”

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