Domingo, Setembro 27, 2026
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Os círculos onde nos movemos

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Para ler o parágrafo inteiro precisamos de ter acesso ao livro, isto é, ao tempo da pessoa e só então a podemos considerar do nosso círculo

Susana Santos

A partilha constante, irrefletida, e massiva de informação acerca das nossas vidas, das nossas festas, das paisagens que vemos ou dos pratos que saboreamos dão-nos a falsa ilusão de participar de um imenso círculo social, sem restrições, sem fronteiras, onde tudo é acessível a todos e, portanto, escrutinável por toda a gente. Nada de mais ilusório, atrevo-me a dizer. As pessoas movem-se sempre em círculos pequenos, mesmo quando exibem uma personagem pública que parece ocupar todo o seu tempo. O que vemos nas redes sociais, no caso dos anónimos ou nos demais meios, no caso daqueles que têm ocupações mais públicas, são sempre instantâneos de um tempo que desconhecemos a menos que façamos parte desse seu círculo.

Mesmo quando se trata de um vídeo ou de um discurso ou de uma opinião, o que nos é dado a interpretar será apenas uma palavra num texto que permanece difuso. Para ler o parágrafo inteiro precisamos de ter acesso ao livro, isto é, ao tempo da pessoa e só então a podemos considerar do nosso círculo.
Serve esta reflexão para temperar a falsa sensação de proximidade que tão facilmente assumimos quando na nossa mão, nessa nova extensão do nosso corpo que é o telemóvel, nos aparece a mesa, o rosto ou a voz da pessoa que avaliamos.

Como tudo nos chega reduzido à pequena dimensão de um retângulo, tendemos a dar a mesma importância a todos os episódios e personagens que acompanhamos no nosso pequeno écran, mas, mais uma vez me atrevo a dizer que não, que só o tempo, esse admirável escultor, como diria Yourcenar, pode moldar a verdadeira forma que cada um vai assumindo na memória do outro.

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Assim sendo, creio que agora, mais do que nunca, devemos estar atentos ao diâmetro dos vários círculos onde nos movemos, não vá dar-se o caso de confundirmos a nossa pequena esfera, com essa outra, global, onde cabem todos os que têm existência virtual incluindo os novíssimos seres digitais, totalmente inventados por nós.

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