O Dia da Mãe está a chegar. Assinala-se no dia 3 de maio, o primeiro domingo do mês que a tradição católica há muito catalogou como tal, celebrando todas aquelas que são mães, protetoras, guerreiras, intensas. Nesse dia, honram-se as memórias de uma vida inteira, com as aprendizagens e lições, com as cicatrizes e alegrias, e onde o amor, esse amor de mãe, parece não ter explicação possível.
Este conteúdo é apenas para assinantes
Não é por acaso que o dia chegou até aos dias de hoje com raízes tão profundas. Em Portugal, o Dia da Mãe teve origem na década de 1950, quando a Mocidade Portuguesa Feminina instituiu a celebração a 8 de dezembro, coincidindo com o Dia da Imaculada Conceição, padroeira do País. Com o tempo, o aproveitamento comercial da data levou os bispos portugueses a solicitarem que o Dia da Mãe fosse alterado para uma data diferente, para permitir que o 8 de dezembro ficasse exclusivamente ligado a Nossa Senhora. Passou então para maio, fixando-se no primeiro domingo.
Neste dia, assinala-se o momento em que as ligações eternas ganham outro sentido, são lembradas com um pouco mais de carinho, celebradas com um pouco mais de presença. Mas, enquanto há mães que têm os filhos por perto durante toda a vida, há outras que os veem voar para um pouco mais longe do que talvez gostariam. Outro país, outro continente, outro fuso horário…
Portugal conhece bem esta dor. É um povo que durante séculos aprendeu a amar à distância – dos marinheiros que partiam para o desconhecido, às levas de emigrantes que fizeram as malas em busca de uma vida melhor. A saudade não é só uma palavra. É, afirmam, uma das emoções mais complexas e intraduzíveis da língua humana: a presença viva de alguém que está ausente. E poucas pessoas a conhecem tão bem quanto uma mãe que vê o filho ganhar asas.
O REGIÃO DE CISTER tentou, por isso, perceber como essas mulheres lidam com saudade dos “mais que tudo”. Uma saudade que dói, mas que também orgulha. Uma vontade de os ter por perto, mas também a consciência de que são livres. Afinal têm os seus filhos longe de casa, da sua alçada, da sua asa. E acredite, caro leitor, há tanto de doloroso, como de transformador nestes testemunhos. Porque é uma saudade que fere, mas que também é bonita. É real. É uma saudade que molda, que amadurece, que prova, dia após dia, que o amor verdadeiro não morre, independentemente da distância.
Clara Vitorino Pereira, 54 anos, dos Casais Garridos, no Juncal, sabe bem o que é ver partir – não uma, mas duas vezes. Administrativa em Alcobaça, é mãe de Rafael, de 29 anos, e de David, de 26, ambos a residirem em Espanha, e guarda na memória cada despedida como se fosse a primeira. Quando o Rafael partiu pela primeira vez rumo à Alemanha, a realidade bateu com força. Clara confessa que viveu aquele período com um misto de emoções que dificilmente cabem numa só palavra: “Preocupação, receio, algum medo do desconhecido, mas também feliz pela determinação e coragem dele”. Em casa, a ausência instalou-se devagar, nos detalhes mais simples e mais dolorosos: “Inicialmente tudo é estranho, a casa fica mais vazia e com menos vida, a mesa tem menos pratos”. As despedidas, diz, nunca ficam mais fáceis. A ligação mantém-se pelas chamadas e pelas mensagens, e é nesses momentos que a distância parece encolher um pouco. Mas há momentos em que nenhuma videochamada chega: “Em dias de aniversário, reuniões de família ou momentos especiais, sinto falta da presença e da alegria deles”. No Dia da Mãe, então, essa ausência intensifica-se. Sente-se falta do abraço, do toque, do carinho. Da presença física. Ainda assim, Clara sabe que eles estão longe, mas também estão felizes e realizados. E isso chega para sentir-se melhor. A porta, essa, continua sempre aberta: “A nossa casa será sempre deles. Aqui encontram um porto seguro se assim entenderem”. Para este Dia da Mãe, a mensagem é a mesma de todos os dias: “Amo-os muito e sinto muito orgulho por eles”.
Por sua vez, Sandra Dias, de 50 anos, de Alcobaça, descreve a filha Bruna com três palavras: “A sonhadora. A corajosa. A filha que desde cedo disse que ia emigrar porque Portugal era muito pequeno para ela”. Sandra vive rodeada de família na Quinta do Mogo, freguesia de Aljubarrota. Pais, irmãos, tios, primos, e até a filha mais velha, Patrícia, a construir casa ali mesmo ao lado. Um mundo cheio, quente, enraizado. E foi desse mundo que a Bruna escolheu sair.
O rastilho, conta Sandra, foi aceso pelo amor. Quando a Bruna se apaixonou pelo Alexandre, que partilhava o mesmo sonho de expandir horizontes, a decisão ganhou forma e… data: 1 de novembro de 2024. “Deixei-os no aeroporto em Lisboa… nervosos, ansiosos, felizes… um misto de sentimentos”. Sandra tomou uma decisão naquele momento, quase como um ato de proteção para si própria: não chorar. “Porque se chorasse era admitir que estavam errados e não deviam seguir os seus sonhos”. E logo os medos de mãe se instalaram: “E se chegassem lá e não tivessem para onde ir? E se estivessem a ser enganados?”. Correu tudo bem. Mas a preocupação não foi embora.
Sandra sabe que a filha esconde as dificuldades para poupar os pais ao sofrimento. O primeiro Natal foi uma ferida que não se disfarça: “Foi horrível. Para nós, pais, e para eles também, com certeza”. No segundo ano, Sandra e o marido [Pedro] fizeram as malas e foram até aos Países Baixos. “Foi incrível. Apesar de termos a família dividida de novo”.
Carrega a esperança de um dia os ver regressar, mas sem nunca a impor. “Anseio sinceramente pelo dia em que voltem e recomecem a vida deles mais perto de nós. Porque o Dia da Mãe sem os filhos à volta da nossa mesa não é a mesma coisa”. O orgulho é difícil de explicar: “Estou muito orgulhosa deles e, apesar de sofrer todos os dias com a ausência, só lhes desejo prosperidade e muita saúde nessa aventura. Parabéns pela audácia que tiveram. Aquela que eu nunca tive”.
Já Susana Rodrigues, 58 anos, bancária em Alcobaça, viu a filha, Mafalda, de 28 anos, seguir um sonho que sempre teve: ser comissária de bordo: “seguiu o caminho que sempre foi um sonho meu”, notou. E há nestas palavras algo de raro: uma mãe que vê na partida da filha um reflexo da mulher que ela própria poderia ter sido.
Isso não torna a saudade mais leve. Torna-a diferente. “É duro, a saudade dói muito, mas é tão gratificante saber que se sente feliz e realizada…”.
O que mais custa, confessa, não são as grandes ausências, mas as pequenas, pois é nos detalhes do quotidiano que a falta se instala com mais força: “Somos muito cúmplices e companheiras de vida, a saudade aperta nos programas de fins de semana, e na companhia à noite”. Para colmatar a distância, quando surge oportunidade, Susana faz as malas e vai ao encontro da filha, onde quer que esteja.
Para o Dia da Mãe, o desejo é simples: “O Dia da Mãe ideal é estar com a minha filha e com a minha mãe. Mas se por alguma razão não for possível, continua a ser um dia que estamos de coração juntas – e isso é o mais importante”. E a mensagem que deixa à Mafalda é carregada de significado: “Nunca percas a vontade de seguir os teus sonhos, assim como a esperança. Eu estou sempre contigo, ao teu lado”, remata.
Para os filhos, também não é fácil fazer as pazes com a distância. Podem até estar em paz com a escolha que fizeram, mas o colo da mãe é uma coisas que nenhuma conquista substitui. É nos momentos mais apertados que isso se revela com mais intensidade. Quando a febre sobe e não há ninguém que trate como só uma mãe sabe: com a “mistura” tão vincada de ternura e determinação, como se curar fosse uma questão de amor e não de medicina. Quando uma desilusão bate à porta, seja no trabalho, no amor ou em qualquer outra situação, e o que mais faz falta é um abraço. Quando até o ralhar faz falta. Porque o ralhar de mãe tem uma qualidade que mais nada tem: é o único sermão do mundo que consegue “saber” a carinho. É nesses momentos que reside a dor silenciosa dos filhos. Que não os paralisa, mas que os acompanha – como uma sombra suave que aparece sempre que a saudade resolve sentar-se com eles.
David Pereira, filho de Clara, define a mãe numa só palavra: “Presença. Porque mesmo estando mal, triste, irritada, nunca falhou em estar”. E acrescenta: “No fim de contas, a única coisa que posso dizer é obrigado”. O irmão Rafael, partilha do mesmo sentimento: “É um orgulho e um privilégio ser filho dela”. O jovem, que teve cancro de pele, confessa que “entre noites em cadeiras de hospital e dias de paz e alegria, ela esteve sempre presente, nunca deixou de ter um pensamento positivo”.
Bruna Santos, filha de Sónia, não esconde que a saudade tem endereço certo. “Sinto falta da minha mãe todos os dias, em pequenas coisas que me fazem lembrar dela”. Foram sempre muito próximas e a mensagem que deixa para o Dia da Mãe é simples e poderosa: “Obrigada por me apoiares, mesmo quando não percebes as minhas decisões, e obrigada por me teres deixado errar quando eu precisava de aprender sozinha”. Acrescenta, com palavras emocionadas: “Tenho muito orgulho em ti e em ser tua filha. Todos os esforços valeram a pena”.
Por fim, Mafalda Almeida, filha de Susana, confessa que as conquistas têm o rosto da mãe. “A vida que tenho hoje deve-se plenamente ao esforço que ela fez por mim”. Admite que nem sempre é fácil mostrar o que sente: “Gostaria genuinamente de dizer que o meu carinho e amor é enorme, por muito que não mostre e por muito que seja fria”. Mas o que sente, sente-o com intensidade. “Graças a ela tornei-me uma mulher completamente independente e com princípios”. E guarda com especial carinho os gestos que nenhuma distância apagou: “Valorizo muito os esforços em voar sozinha para vir ter comigo às bases, nos piores cenários e países, mas sempre com uma excelente energia”. Mafalda não tem dúvidas: “A minha mãe é um orgulho. Na garra, na persistência, na luta pelo melhor e, acima de tudo, na lealdade e genuinidade que transmite. Orgulho-me muito por tudo aquilo que ela me fez crescer”.
Estes jovens olham para as mães não apenas com saudade, mas com algo ainda mais poderoso: admiração. Apesar de os caminhos serem muitas vezes distintos, reconhecem nelas uma força da natureza. Um amor sem condições. Um exemplo que carregam consigo para onde quer que vão. E isso, para ambos os lados desta distância, é a coisa mais certa que há na vida. O amor de mãe. Que não diminui com os quilómetros. Que não envelhece com o tempo. Que simplesmente permanece. E que continuará, sempre, a permanecer.


