Uma cadeira de rodas de 180 quilos e um País com lacunas profundas ao nível da acessibilidade. Foi a partir desta realidade que João Vítor Baptista, de 18 anos, aluno do 12.º ano do curso de Comunicação e Serviço Digital da Escola Profissional da Nazaré (EPN), criou o InclusivCar, com a ajuda dos colegas Anton Bondarenko e David Koja. O projeto sagrou-se vencedor do Concurso de Empreendedorismo nas Escolas da Região Oeste 2025/2026.
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João nasceu com Artrogripose Múltipla Congénita, uma doença rara que lhe causou malformações nas articulações e nos ossos, condicionando a sua mobilidade e impedindo-o de realizar a maioria das tarefas do quotidiano de forma autónoma. Tomar banho, vestir-se, comer certos alimentos são tarefas que dependem sempre de ajuda. A sua cadeira de rodas, bem mais pesada do que as convencionais, exige um veículo devidamente adaptado para ser transportada, algo que, em Portugal, continua a ser uma realidade escassa. Foram poucas as vezes que João conseguiu acompanhar os colegas em visitas de estudo. E foi precisamente aí que germinou a ideia.
“No meu 9.º ano de escolaridade, tive a ideia, ainda muito abstrata, de criar uma empresa que viesse minimizar as barreiras à mobilidade destas pessoas. No entanto, só a partir de 2024 é que comecei a desenvolver o projeto, visto que ambiciono torná-lo real e que, no ano seguinte, poderia apresentá-lo como proposta de PAP”, conta ao REGIÃO DE CISTER.
O desenvolvimento não foi simples. Uma das principais dificuldades foi a recolha de dados: “Em Portugal existem poucos dados sobre mobilidade reduzida e os que existem são muito genéricos e amplos”. A professora e orientadora Sara Vieira foi um apoio fundamental nesse processo, ajudando a contactar municípios, vereadores e entidades para recolher informação local sobre o número de pessoas com mobilidade reduzida e as soluções de transporte disponíveis.
Depois de meses de pesquisa e planeamento, nasceu o InclusivCar: uma iniciativa que projeta uma empresa focada no transporte de pessoas com mobilidade reduzida, acompanhadas pelos seus familiares e amigos. O agendamento funciona através de uma aplicação móvel, à semelhança da Uber, mas sem excluir formas clássicas de contacto, como o telefone ou o email, tendo em conta a menor literacia digital de parte da população. Está também previsto um programa de informação dirigido tanto às pessoas com mobilidade reduzida como aos seus cuidadores, esclarecendo-os sobre direitos e recursos disponíveis. “A missão da InclusivCar é minimizar as barreiras à mobilidade destas pessoas, dando-lhes mais autonomia e liberdade”, resume João.
Vencer o concurso foi, para todos os envolvidos, um motivo de orgulho, mas, acima de tudo, uma confirmação de que o projeto tem valor e que o caminho é este. “Recebemos primeiro a notícia que o InclusivCar estava na final, entre os três melhores. E depois acabámos por ser premiados com o 1.º lugar no ensino secundário, com muita emoção por tudo o que este prémio significa. Enquanto professora, diretora de curso e orientadora de PAP, sinto um orgulho imenso no percurso destes alunos, em especial do João, por toda a resiliência”, partilhou Sara Vieira com o REGIÃO DE CISTER. Também o presidente da Câmara da Nazaré, Serafim António, destacou o projeto em reunião de executivo, classificando-o como “muito interessante”.
O concurso, promovido pela Comunidade Intermunicipal do Oeste a 30 de maio, desafia estudantes a desenvolver projetos inovadores alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Entre as rubricas da edição deste ano estiveram a criação de uma “Cápsula do Tempo”, ideias guardadas para abrir em 2046, e o Orçamento de Empreendedorismo Participativo, com apoios até 500 euros para a implementação das melhores propostas.
O InclusivCar é, afinal, muito mais do que um projeto escolar. É um lembrete de que a acessibilidade não pode continuar a ser um privilégio, e de que, por vezes, são os que mais sentem o problema os que melhor sabem como resolvê-lo.


