Tarrafal, Cabo Verde, África. Para Margarida Vicente, 26 anos, natural dos Casais de Santa Teresa, em Aljubarrota, nunca foi apenas um continente distante no mapa. Foi, desde sempre, um chamamento. Um encanto difícil de explicar mas que, ao longo dos anos, se foi tornando impossível de ignorar. Como se, algures no tempo, já soubesse que seria ali que iria traçar o seu caminho e deixar a sua marca.
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A oportunidade surgiu durante a licenciatura em Educação Básica e o Mestrado em Educação Pré-Escolar, na Escola Superior de Educação de Lisboa. Abriu-se a hipótese de trabalhar no Tarrafal, em Cabo Verde. E Margarida não hesitou. Partiu ao encontro do que viria a ser – e continua a ser – a maior aventura da sua vida.
E depois de três anos, a sua história inspira, mas não é feita de facilidades. Partiu com dúvidas e medos: o peso da distância da família, o receio do desconhecido, o calor intenso, os mosquitos, as alergias, a alimentação diferente. Sabia que teria de se adaptar a uma realidade distante daquela a que estava habituada. No entanto, à chegada, muitos desses receios dissiparam-se. A jovem confessa que foi muito bem acolhida, tanto pela organização onde trabalha como pelas pessoas locais que, segundo a aljubarrotense, “são donas de um coração inigualável”.
Os primeiros tempos, ainda assim, foram exigentes. Nas primeiras semanas foi mordida por um mosquito, o que a obrigou a alguns [bons] dias de repouso. Tudo era diferente. As condições não eram as mesmas a que estava habituada. A ausência de internet constante, de água quente ou de uma máquina de lavar roupa representou um choque inicial. Hoje, porém, Margarida olha para trás com a certeza de que cada dificuldade teve um propósito. E continua a ter, dia após dia.
Nos primeiros dois anos, assumiu funções como educadora de infância num jardim-de-infância pertencente à Delta Cultura, uma Organização Não Governamental (ONG). Mais tarde, o seu papel ganhou outra dimensão ao tornar-se coordenadora do espaço. E foi aí que começou uma transformação mais profunda.
Quando chegou ao Tarrafal, encontrou uma equipa desmotivada, sem sentido de missão, sem ética profissional consolidada. “Foram anos complicados porque aconteceram muitas coisas com as quais não concordava. Sentia-me muito sozinha no trabalho”, revelou ao REGIÃO DE CISTER. Deparou-se também com um método de ensino que contrariava os valores que sempre defendeu: um modelo onde os gritos e as palmadas eram práticas recorrentes. Desde o primeiro dia, traçou um objetivo claro – mudar essa realidade. Sabia que não seria simples alterar mentalidades enraizadas numa cultura onde determinados comportamentos eram vistos como normais. Mas também sabia que o que é verdadeiramente transformador raramente é fácil.
Este ano, já como coordenadora, decidiu estabelecer limites e redefinir caminhos. Promoveu uma reunião no início do ano letivo, onde apresentou um novo modelo de funcionamento e as mudanças que pretendia implementar. Foi o primeiro passo de um processo exigente, mas imperativo. Entre as medidas adotadas destacam-se a eliminação de qualquer forma de violência para com as crianças, a realização de reuniões mensais de equipa para reflexão e melhoria contínua, o registo diário das atividades desenvolvidas e a promoção de formações ajustadas às necessidades da equipa – que não possui formação específica em educação de infância. Medidas que, para Margarida Vicente, deveriam ser básicas, mas que naquele território necessitaram de ser construídas de raiz.
Os resultados começam a ser visíveis. Assegura que a evolução é diária: uma equipa mais dedicada, alegre e motivada para proporcionar novos momentos de diversão e aprendizagem às crianças: “uma equipa que abraça, que se senta no chão, que ouve e acolhe cada criança com mais amor, compreensão e paciência”.
Por parte das crianças, a mudança também é clara, embora nem sempre seja linear. “O facto de existir alguém que ouve, que acalma, dá abraço, colo… ajuda muito a melhorar o comportamento delas porque finalmente encontram um lugar onde se sentem seguras e não onde estão constantemente a ser reprimidas”. No entanto, a caminhada também tem percalços. Há dias mais difíceis do que outros. Mas a convicção mantém-se firme: “O caminho faz-se caminhando”.
Com humildade, reconhece que ainda há muito por fazer. Mas sabe também que já contribuiu para solucionar problemas estruturais naquele estabelecimento de ensino. Plantou uma nova perspetiva de educação – uma educação sem violência, assente no respeito e no afeto – junto de crianças entre os dois e os cinco anos. “Mostrei-lhes algo que nunca tinham sentido antes: que um adulto que respeitam é um adulto de amor”, frisou.
E é essa certeza que lhe enche o coração. E que, todos os dias, lhe renova a força para continuar.
Há três anos em São Tomé e Príncipe, também Bernardo Pereira, de 27 anos, decidiu mudar o rumo da sua vida para lutar por uma educação melhor. Licenciado em Biomecânica, o jovem, de Évora de Alcobaça, confessa que, na época, o que o levou a tomar essa decisão foi a necessidade de encontrar um propósito.
Ao contrário de Margarida, a adaptação foi relativamente fácil. “Como mergulhei de cabeça na cultura e nos costumes locais, consegui absorver rapidamente a forma de viver da população”, conta ao REGIÃO DE CISTER.
Quando chegou a São Tomé, com uma associação que tinha como principal objetivo distribuir donativos, achava que por lá se manteria durante três meses. Mas no momento de regressar, soube que continuava a ser tempo de permanecer. E assim foi. Começou a dar explicações numa biblioteca de um café, mas com o passar do tempo e com o aumento da procura pelos seus serviços, acabou por necessitar de um espaço próprio para desenvolver o trabalho com os alunos.
O eborense explica que trabalha sobretudo com estudantes que têm contacto com o ensino português. Ainda assim, ao observar o panorama da escola pública em São Tomé e Príncipe, reconhece que existe uma carência significativa de conteúdos adequados e de recursos – tanto para professores como para alunos.
Dentro das possibilidades que tem, procura também contribuir para mudar mentalidades. “Sinto que tenho um papel importante na construção de mentalidades. Procuro abrir-lhes a mente para outras realidades e conhecimentos, mostrando que existem diferentes caminhos e possibilidades para o futuro”, afirma o jovem.
Recorda, por exemplo, o episódio de duas meninas que, sem permissão, entraram no espaço onde dava explicações. Uma fugia da outra, que a perseguia. Com calma e paciência, e depois de alguma conversa sobre inteligência emocional, ambas acabaram por acalmar-se e terminaram a ajudar-se mutuamente a resolverem os exercícios que Bernardo Pereira lhes propôs. Entre os objetivos que o eborense traçou para o futuro está a criação de um projeto de explicações sociais gratuitas, destinado a alguns dos jovens que foi conhecendo ao longo do percurso.
Em São Tomé, o espírito do “leve-leve” é uma constante. O conceito é amplamente conhecido no país e significa literalmente “devagar, devagar”. Mais do que uma expressão, representa um modo de vida: um convite à calma e a desfrutar do momento sem pressas, ao ritmo tranquilo da ilha, com serenidade e sem ansiedade. É uma filosofia que reflete a hospitalidade e a forma leve de encarar a vida e as dificuldades que vão surgindo pelo caminho.
E, no fundo, talvez seja também esse o modo de viver de Bernardo Pereira que, tal como Margarida Vicente, escolhe ficar todos os dias: não por necessidade financeira, mas sim, por amor.


