Há histórias que começam em sítio improváveis e terminam [ou melhor, continuam], nos lugares mais inesperados. A de Mafalda Ribeiro é uma delas: uma jovem nascida e criada no Bárrio, que hoje percorre oceanos como elite dancer de um dos maiores grupos de cruzeiros do mundo.
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Tudo começou quando tinha cinco anos. Deu os primeiros passos na dança sob a orientação de Annarella Sanches – a mesma professora cubana que viria a fundar, em Leiria, o hoje internacionalmente reconhecido Conservatório Internacional de Ballet e Dança Annarella Sanchez, considerado uma das melhores escolas de dança do mundo e vencedor do prestigiado prémio Outstanding School Award atribuído pelo Youth America Grand Prix, em Nova Iorque.
E foi precisamente a ligação precoce à dança e à metedologia rigorosa de Anarella que lhe abriu os horizontes. Aos 10 anos, a certeza chegou: “Percebi que queria seguir dança”. Dois anos depois deu um passo decisivo e transferiu-se para a escola de Leiria, integrando o ensino articulado do conservatório, em paralelo com os estudos na Escola Secundária Afonso Lopes Vieira.
O compromisso com a dança, exigiu, cedo, sacrifícios pouco comuns para a sua idade. Aos 15 anos foi viver sozinha para Leiria. “Mudei-me para conseguir conciliar mais facilmente os estudos e a dança”, explicou ao REGIÃO DE CISTER, com uma naturalidade que revela o amadurecimento forjado por anos de dedicação.
Foi também nessa fase que o seu percurso artístico ganhou uma nova dimensão. Com 17 anos, começou a ter aulas de jazz e foi nesse momento que percebeu que era o estilo que realmente gostava de dançar. E a descoberta transformou-se num objetivo concreto: começou a pesquisar escolas de jazz em Londres, e durante o período da pandemia da Covid-19, fez a audição para o London Studio Centre, uma das mais prestigiadas instituições em dança no Reino Unido.
E passou. Aos 18 anos, mudou-se para Londres para iniciar o Jazz Pathway na London Studio Centre. Durante três anos, mergulhou numa formação intensiva e multidisciplinar. “Aprendi diferentes estilos como sapateado, canto, jazz, hip, hop, danças latinas e dança comercial”, conta.
O esforço foi recompensado: terminou a licenciatura com as melhores notas e recebeu o Gillian Lynne Award for best Achievement in Jazz Dance, uma das distinções mais cobiçadas da escola, que homenageia a lendária coreógrafa britânica Gillian Lynne.
No último ano de faculdade, foi selecionada para integrar a coreografia que representaria a escola no Move It, um dos maiores e mais concorridos eventos de dança de Londes, onde se reúnem as melhores escolas da cidade para mostrar o seu talento. Foi precisamente nesse palco que o seu futuro se redefiniu: “Lá fiz a audição para a Royal Caribbean. Foi a minha primeira audição, passei todas as fases e um mês depois recebi o contrato”, revelou.
Concluída a faculdade em junho e, em setembro do mesmo ano, já estava em Miami a ensaiar. O primeiro navio foi o Grander of the Seas, onde cumpriu um contrato de nove meses. Após três meses em terra, chegou o segundo contrato.
Atualmente com 23 anos, navega a bordo do Adventure of the Seas, um navio de maiores dimensões. “Sou uma elite dancer e faço parte de um elenco de 15 artistas”, descreve com orgulho. A bordo, o trabalho é intenso e variado: “Temos dois espetáculos principais que apresentamos duas vezes por cruzeiro e também fazemos o primeiro show para receber os passageiros”.
Com contratos que variam entre os nove e os onze meses, a vida de Mafalda é feita de oceanos, palcos flutuantes e públicos de todo o mundo. “A minha casa é praticamente no mar, mas sempre que acabo um contrato, volto para Portugal, para a minha casa no Bárrio”, regozija.
É esse regresso às origens, que torna a história ainda mais especial. Do Bárrio para o mundo, a jovem bailarina é a prova de que os sonhos mais improváveis se constroem com talento mas, também, muita dedicação.



