Sabia que uma única dádiva de sangue, cerca de 450 mililitros [0,45 litros], pode ajudar a salvar até três vidas? Apesar de ser um gesto simples e rápido, que demora apenas cerca de 30 minutos, continua a ser essencial para garantir as reservas de sangue necessárias nos hospitais. Em Portugal, são necessárias diariamente cerca de 1.100 unidades de sangue para responder às necessidades dos doentes, um número que só é possível assegurar graças à solidariedade de milhares de dadores.
Este conteúdo é apenas para assinantes
Ainda assim, persistem dúvidas e receios que afastam potenciais voluntários. A dádiva de sangue é um procedimento seguro e sem consequências para a saúde de quem doa. O organismo repõe o volume de plasma perdido entre 24 e 72 horas após a colheita, pelo que não há motivo para receios. Quem tem mais de 18 anos, pesa mais de 50 quilos e mantém hábitos de vida saudáveis pode contribuir para esta causa e fazer a diferença na vida de quem precisa.
E no mês em que se assinala o Dia Mundial do Dador de Sangue [a 14 de junho], o REGIÃO DE CISTER esteve à conversa com os presidentes das associações de dadores de sangue de Alcobaça e do Valado dos Frades, bem como o Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), para perceber os desafios e a realidade atual da dádiva de sangue na região.
Apesar das 22 sessões de colheita realizadas anualmente, a Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Concelho de Alcobaça tem registado um decréscimo progressivo no número de participantes. O presidente da associação, Rui Santos, revela que em 2021 a instituição contava com 1.163 dadores inscritos e obteve 987 dádivas, sendo 81 delas de novos dadores. No ano seguinte, em 2022, os números baixaram para 1.138 inscritos e 943 dádivas, com 83 novos dadores. O declínio acentuou-se em 2023, ano em que se registaram 1.010 dadores inscritos e 848 dádivas, das quais 86 foram de estreantes. Em 2024, verificou-se uma ligeira estabilização com 1.009 inscritos, 831 dádivas e 83 novos dadores, mas a tendência de queda acentuou-se novamente em 2025, fechando o ano com 919 dadores inscritos e apenas 774 dádivas, tendo 79 sido de novos dadores. O dirigente sublinha que, para além da quebra, o ano passado ficou marcado por contratempos logísticos, uma vez que tiveram menos duas sessões de colheita por terem sido desconvocadas pelo IPST devido à falta de recursos humanos.
Quanto à adesão dos jovens, o presidente da associação alcobacense nota que há, com regularidade, novos dadores jovens, considerando que seria positivo aumentar este número. Nesse sentido, já promoveram, em anos anteriores, sessões de esclarecimento sobre a dádiva junto das escolas, com o objetivo de incentivar as camadas mais jovens, ainda que reconheça que a faixa etária da comunidade escolar seja, na maioria dos casos, demasiado precoce para inicar a dádiva. Quanto aos grupos sanguíneos, A Negativo e O Negativo são, segundo o dirigente, os mais raros entre dadores.
O registo de inscrição de um novo dador é simples: registo em base de dados, preenchimento e assinatura de um termo de consentimento, seguido de uma consulta de triagem confidencial, na qual são avaliadas a hemoglobina e a tensão arterial, além de questões de foro pessoal que visam garantir simultaneamente a segurança do dador e a do recetor da transfusão.
“Dar sangue é um ato de cidadania participativa”, afirma Rui Santos, deixando um apelo à dádiva, anunciando colheitas agendadas para 28 de junho, na Benedita, e 18 e 19 de julho, em Alcobaça e Turquel, respetivamente.
No Valado, a associação local apresenta uma evolução distinta e em contracorrente. Segundo Hélder Cunha, presidente da associação, os números dos últimos cinco anos mostram uma clara tendência de crescimento. Em 2021, a instituição registou 355 dadores inscritos e 301 dádivas, sendo 46 delas de novos dadores. No ano de 2022, o número subiu para 387 inscritos e 332 dádivas, com 37 novos dadores, sofrendo uma ligeira flutuação em 2023 ao fixar-se em 374 dadores inscritos e 299 dádivas, das quais 27 foram de estreantes. O grande salto deu-se em 2024, ano em que a associação atingiu os 506 dadores inscritos e as 405 dádivas, impulsionada por uns expressivos 111 novos dadores. Esta rota de crescimento consolidou-se em 2025, fechando o ano transato com um recorde de 543 dadores inscritos e 414 dádivas, registando-se ainda a entrada de 88 novos voluntários.
Hélder Cunha sublinha que a base da informação da associação é o IPST e que a organização é associada da Federação das Associações de Dadores de Sangue (FAS-Portugal) – tal como a de Alcobaça –, na qual exerce o cargo de Vogal da Direção. O dirigente destaca ainda que a “Jornada da Dádiva de Sangue na JMJ2023” foi coordenada pela associação valadense, na pessoa do próprio presidente, a nível nacional, tendo sido, segundo refere, a maior promoção da dádiva de sangue a nível mundial.
A associação reforça que dar sangue é “um verdadeiro ato de amor”, recordando que o sangue é um tecido insubstituível e que, sem dadores, o sistema transfusional pode não funcionar. As colheitas mantêm-se nos primeiros domingos de cada mês, de manhã, na sede da associação. A associação organiza ainda duas colheitas anuais em parceria com a Câmara da Nazaré e uma colheita em julho, na marginal, com a Unidade Móvel do IPST. No próximo dia 5 de julho, excecionalmente, a colheita realiza-se no Clube Estrela do Norte, em Famalicão, numa parceria com a respetiva Junta.
A nível nacional, e também questionado pelo REGIÃO DE CISTER, o responsável pela área da Comunicação do IPST, Paulo Benvindo, confirma que se tem verificado um abrandamento no número de dadores e dádivas a nível nacional, com as reservas a necessitarem de reforço, sobretudo nos grupos sanguíneos O positivo e O negativo. O responsável esclarece, no entanto, que o estado atual das reservas é típico desta época do ano, uma vez que os períodos de feriados levam muitas pessoas a estar fora da sua área de residência habitual.
Quanto às inovações recentes, o responsável do IPST destaca os avanços que permitiram aumentar a qualidade e a segurança das transfusões. Entre as principais melhorias, aponta a modernização dos laboratórios, que agora utilizam processos digitais para eliminar o uso de papel nos registos dos dadores, tornando o atendimento mais rápido e eficiente. Além disso, a introdução de sistemas automatizados e de novas tecnologias veio facilitar a separação eletrónica dos diferentes componentes do sangue, como os glóbulos vermelhos, o plasma e as plaquetas, garantindo um aproveitamento muito mais seguro, preciso e rigoroso de cada dádiva.
Para Gabriela Vidinha, do Valado dos Frades, a decisão de se tornar dadora foi natural: a mãe era dadora mas, por motivos pessoais, teve de deixar de o ser, e foi ao fazer 18 anos que Gabriela deu sangue pela primeira vez. Quatro anos depois, com dez dádivas feitas, a jovem, atualmente com 22 anos, descreve a sensação como “muito gratificante” e confessa que nunca sentiu nervosismo, pois estava tão certa da sua escolha que o medo durou apenas frações de segundo. Lamenta, porém, a falta de valorização do dador: “Sinto que não somos valorizados o suficiente. E que as pessoas também não têm informação suficiente sobre o bem que a doação nos faz a nós e à pessoa que recebe o sangue. Realmente podemos mudar vidas!”.

Para João Simões, de 47 anos, da Benedita, o contacto com a dádiva surgiu da perda de um grande amigo, vítima de leucemia, que o levou primeiro a testes para dádiva de medula e depois a dádivas de sangue total. É dador desde 2001, com duas a três dádivas por ano, e desde 2020 faz também dádivas de aférese para tratamentos oncológicos, sempre no Instituto do Sangue, em Coimbra, em homenagem ao amigo que perdeu. Nunca sentiu qualquer reação e considera o processo “muito simples e seguro”. “Nas dádivas todos ganhamos, pois gosto de pensar que estou a ajudar alguém a superar uma fase muito difícil da sua vida”, afirma, lamentando que as reservas continuem abaixo do esperado: “Estou certo que se mais gente experimentasse, teríamos mais dadores”.

Finalmente, para Anabela Figueiredo, de 64 anos, de Alcobaça, foi também a mãe, dadora de sangue, quem a incentivou a seguir o mesmo caminho. Na primeira dádiva sentiu uma ligeira ansiedade, mas recorda a experiência como tranquila. É dadora há mais de 25 anos, com mais de 35 dádivas, e descreve a sensação após cada uma como “de satisfação, de calma, tranquilidade e de dever cumprido”, ficando “de coração cheio”. Para quem tem medo de agulhas, deixa uma mensagem direta: basta saber que, com uma única dádiva, é possível salvar três vidas. Sobre a valorização social dos dadores, considera que já existe alguma evolução, graças às redes sociais, mas reconhece que há ainda muito trabalho a fazer para sensibilizar a população mais jovem.



