Casa Antero: a mais antiga casa de comércio de Alcobaça

O edifício tem cerca de 200 anos e exibe, orgulhosamente, o espaço comercial mais antigo da cidade. O que começou, em 1919, por ser uma mercearia, mais concretamente a “Casa do Povo Abílio da Silva Ramalho”, que vendia “farinhas, tabacos, miudezas”, mas também era “salsicharia” e vendia “fazendas”, permanece na mesma família há oito décadas e transformou-se, em 1988, numa retrosaria. Falamos da Casa Antero, sem sombra para dúvidas uma das “Casas com História” mais cativantes de Alcobaça, e que ganhou o nome de Antero Maria Coutinho, um dos icónicos comerciantes da cidade, que faleceu em 2007 depois de uma vida dedicada aos negócios e à família.

Antero Coutinho era natural de Pataias, mas chegou a Alcobaça em 1935, para trabalhar na mercearia que viria a assumir, por conta própria, em 1943. Tinha apenas 24 anos e nem o facto de se estar em plena 2.ª Guerra Mundial o fez vacilar na hora de se estabelecer. Investiu o que tinha e o que não tinha, mas, sendo homem de contas e de palavra, pagou o trespasse da loja e dinamizou a mercearia, que se tornou numa referência da sempre movimentada Rua Araújo Guimarães.

“Pelo que ele me contou, as pessoas das aldeias vinham todas a Alcobaça e aqui compravam o que precisavam, sobretudo à segunda-feira, quando era dia de mercado”, revela José Armando da Silva, que assumiu o negócio do sogro em 1992, quando decidiu mudar de vida. E foi uma mudança a sério.

“Trabalhava em Lisboa, numa empresa de prospeção de solos, e não sabia nada do negócio de retrosaria. Mas quando nos empenhamos, conseguimos tudo. Tinha de pagar as contas ao fim do mês e, por isso, tive de aprender”, reconhece o sucessor do “Sr. Antero”, que passou a viver em Alcobaça na sequência de um problema de saúde da esposa, Isabel, e do sogro, e assim deu continuidade ao espaço comercial.

O lema da Casa Antero “sempre foi tentar resolver os problemas das pessoas”. O comércio mudou muito ao longo das décadas, mas a máxima mantém-se. “As coisas são muito diferentes, temos menos movimento, mas cuidamos dos nossos clientes. Recordo-me que, há uns anos, precisávamos de cinco funcionários para atender o público aos sábados, hoje, infelizmente, já não é assim”, lamenta José Silva, que não sabe se será possível manter o negócio por muito mais tempo. Além da continuidade familiar, há também os problemas suscitados pelo facto de o edifício ter cerca de dois séculos e “necessitar de obras”. Mas nada que faça perder a simpatia e o sorriso ao homem que muitos confundem com o próprio Sr. Antero e que soube aprender a vender tecidos, botões ou linhas.