Terça-feira, Julho 14, 2026
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As rosas de Cabul

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As rosas declinam-se de vários modos: ou são sem porquê, como em Angelus Silesius (“A rosa é sem porquê; floresce porque floresce (…)”), ou como diz Getrude Stein, “Uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa”, ou se declina de mil e uma maneiras.

Quero deixar de lado estes sentidos e falar nas “Rosas de Cabul”. O título destas anotações foi-me sugerido pela leitura do artigo do “Público” do dia 20/09: “Manifestantes em Cabul contra Extinção do Ministério dos Assuntos da Mulher” – substituído, entretanto, pelo “Ministério para Promoção da Virtude e Prevenção do Vício”. Na fotografia que acompanha a crónica, vêem-se algumas mulheres, “virtuosamente” vestidas, mas com os seus rostos destapados.

Estas mulheres acreditaram em senhores que se revelaram, uma vez mais, pouco recomendáveis. Isto foi há vinte anos e elas convenceram-se de que a selvajaria não iria regressar, até porque  os senhores pouco recomendáveis (que são, final, o mundo inteiro) não iriam deixar que a barbárie se voltasse a instalar, depois de todas as atrocidades, depois da destruição dos Budas de Bamiyan, mas, sobretudo, depois de todas as catástrofes humanas, perpretadas sobre os seus próprios cidadãos.

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Estas “Rosas de Cabul” não vão ter vida fácil – se conseguirem manter a vida. Em nome da “prevenção do vício”, irão desaparecer outra vez dentro de andrajos que são uma ofensa às mulheres, em primeiro lugar, mas também a toda a humanidade.

Depois de um longo período em que o Ocidente acreditava dogmaticamente na sua superioridade cultural, vivemos num período de “pensamento débil”, em que tudo se discute e em que enclaurar as mulheres em burqas parece tão defensável como a excisão gental feminina.

Regressamos de Cabul sem aviso prévio, deixando lá os nossos colaboradores, às mãos de fascínoras. E, pelos vistos, sem remorsos.

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