Quarta-feira, Junho 3, 2026
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Sónia Tavares, entre um croquete e Rossini

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O rigor não é um valor em si mesmo, do mesmo modo que o “compreendermos sempre tudo” também o não é.

Gaspar Vaz

Rossini pode ser sempre um ótimo começo de conversa, por diversas razões, a começar pela culinária. Quem não conhece o conhecidíssimo “Tornedó Rossini”, em homenagem às qualidades culinárias do grande compositor italiano? Embora não esteja documentado que Rossini já conhecesse o croquete, por volta de 1817, não é de descartar essa hipótese, tal é a proximidade do tema da bem-humorada ópera desse ano, “La Gazza Ladra” e o inenarrável episódio que uniu, por estes últimos dias, Sónia Tavares, o Rock’n Rio Lisboa e a dita especialidade gastronómica.

Comecemos pela Gazza Ladra, uma “história verídica”. Ninetta, a protagonista, é levada a tribunal, acusada de ter roubado um garfo de prata. Considerada culpada, é condenada à morte. No dia do fatídico cumprimento da sentença, descobre-se que a ladra é uma ave (gazza = pega), que escondeu o objeto do seu furto no topo do campanário da aldeia. Foi o sol que, em batendo no garfo, salvou a vida de Ninetta.

O que se passou no Rock’in Rio daria (e dá) vontade de rir: afinal, já houve pedido de desculpas, a Sónia, entre o sério e o burlesco, defendeu-se, atacando com humor e bom gosto, já houve uma produção de piadas de muito bom nível que nos vai alimentar o riso durante semanas. No entanto, a Sónia defendeu-se e desmascarou uma situação inenarrável, muito à conta de ser a Sónia Tavares. Na verdade, há por aí outros exemplos de “castigos exemplares”, “defesa de valores e princípios”, em que um saco levado de graça, um chocolate fora de prazo… são “excelentes motivos” para testarmos a “solidez dos nossos princípios”.

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Fosse o croquete comido por gente menos à vontade com uma certa relatividade das coisas (que, ao contrário do que pensam alguns yuppies, pode ter conteúdo ético mais valioso do que a inflexibilidade…) e, se calhar, no seu anonimato, estava muito bem defendido o rigorismo ético.

O rigor não é um valor em si mesmo, do mesmo modo que o “compreendermos sempre tudo” também o não é. E, por uma questão sanitária, é avisado desconfiar de quem se submete a princípios absolutos, como se fossem âncoras de uma nova religião. Por isso, gosto de gente “imperfeita”, assim, como a Sónia.


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