Segunda-feira, Janeiro 19, 2026
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O caso Guterres (ou o “caso Israel”)?

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A Europa, nomeadamente a França, é tratada como uma quintessência do passado que, entre a sua panóplia de perfumes, não dá a devida importância ao perfume do futuro: o perfume a explosivos, a morte

Gaspar Vaz

Estão a ver Guterres, Secretário-Geral da ONU, como um radical? Ninguém vê. Estão a ver o Secretário-Geral da ONU como anti-semita? Ninguém. Acham que Guterres está a favor do terrorismo, do Hamas, do Hezbollah, que fez do Líbano um estado falhado? Claro que não. Então, de onde vem esta sanha de Israel contra o Secretário-Geral – que, diga-se, é português?

Talvez devamos começar por aí. “Português” é, neste contexto, um diminutivo de “Europeu”. Isso quer dizer que Israel, na sua pose de estado-maravilha, explorando a conjuntura eleitoral do seu indefetível aliado, está à vontade. A Europa, nomeadamente a França, é tratada como uma quintessência do passado que, entre a sua panóplia de perfumes, não dá a devida importância ao perfume do futuro: o perfume a explosivos, a morte. O resto vem por acréscimo: a Rússia tem muito com que preocupar na Ucrânia. A China pondera uma intervenção definitiva em Taiwan, de modo a coroar o consulado perfeito de Xi. Com tanto para nos preocuparmos, qual a verdadeira importância dos 40000 mortos em Gaza, mais os outros, já muitos, que morrem no Líbano?

Este cenário armagedónico é perfeito para os radicais como Smotrich e Ben-Gvir se afirmarem. Em resposta ao radical slogan palestiniano “Do Rio até ao Mar”, sobem a parada e, ancorados em Genesis 15: 18-21, não desdenham a construção de um Grande Israel que vá “do rio do Egito até ao grande Rio Eufrates”. E, já que aqui estamos, escolhamos da Bíblia as suas mensagens mais radicais. Por exemplo, o Livro de Josué. Josué, mandado por Deus, tomou Jericó e, segundo o relato bíblico, a todos passou a fio de espada: “homens e mulheres, crianças e velhos, bois, ovelhas e jumentos”.

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Poderia ter escolhido o “Cântico dos Cânticos” que é um livro belíssimo…. Contudo, ninguém, por estes tempos, parece querer ler o “Cântico dos Cânticos”. Esta provocação chegou agora ao seu acme: para fazer o seu trabalhinho bem feito, é necessário, diz Netaniahu, que a força da ONU se retire. Tivesse eu vocação para herói e te diria, António: agenda uma visita à Unifil. Já.

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