Terça-feira, Outubro 20, 2026
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O ódio chegou à cidade

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A Revolução de 25 de abril resolveu muitas questões, entre as quais a Saúde, a Educação, a Democracia, a Guerra Colonial. Porém, deixou de lado os deserdados da sorte, mesmo que fossem bons

Gaspar Vaz

No meu tempo, as ideias dominantes eram “Love & Peace”, aprendidas em festivais como o mítico Woodtstock. As minhas referências, por obra de uma educação em instituição católica, eram mais cool, conservadoras: Saint-Exupéry, Rabindranath Tagore, Bergson, Michel Quoiste…. Noutros domínios, descobríamos Althousser, Pessoa, Fernando Namora e, aqui e ali, Marx … Vinda a revolução, num primeiro tempo, houve crispação, sobretudo da esquerda em relação à direita. Depois, as coisas inverteram-se, mas a animosidade manteve-se.

Na verdade, uma revolução é uma revolução. E, em vez de estarmos a efabular, convenhamos na pertinência do sentido etimológico: “revolutio” significa dar voltas, voltar ao mesmo. Porém, as “revoluções políticas”, ao contrário das “revoluções celestes”, têm como propósito transformar, modificar um estado de coisas. As coisas, porém, nunca foram assim, pelo que devemos colocar as questões que doem.

A Revolução de 25 de abril resolveu muitas questões, entre as quais a Saúde, a Educação, a Democracia, a Guerra Colonial. Porém, deixou de lado os deserdados da sorte, mesmo que fossem bons. Deixou de lado as periferias, mesmo que fossem capazes de outro destino. Deixou de lado os cidadãos “bem-educados” que, em vez de colherem frutos por essa virtude, foram por ela prejudicados. E empoderou pessoas cujos méritos nunca conhecemos, mantendo intocáveis guetos que, apesar dos incentivos da República, aparecem, aqui e ali, vinculados a atos que a República não pode tolerar. É este o combustível de uma revolta que, com algum sentido, está a dar cabo, sem sentido, do melhor sistema político que, com a exceção de todos os outros o mundo já viveu.

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Porém, o povo, mesmo que tenha como principal habilitação escrever nas redes sociais, é quem mais ordena. Porém, está a ordenar numa escrita incipiente, com muitos erros, muitos palavrões, muitas falsidades. E, sobretudo, muito ódio. És capaz de muito melhor, povo meu.

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