Há vidas que se medem pelos passos seguros e outras que só ganham sentido no desconhecido. A história de Inês Ferreira, de 29 anos, psicóloga natural de Évora de Alcobaça, parecia destinada ao primeiro cenário: um percurso académico imaculado, mestrado com distinção na Universidade de Lisboa e um início de carreira fulgurante na Cruz Vermelha Portuguesa, que lhe valeu o Prémio Psicólogo Júnior da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
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Aos olhos do mundo, Inês tinha tido tudo o que a sociedade ensina a querer: funções de liderança, aulas lecionadas em duas universidades, uma pós graduação em Gestão na Saúde pela Nova SBE, onde foi a primeira e mais jovem psicóloga a entrar, e convites de instituições de topo, como a American Psychological Association (APA). Tinha a carreira em crescimento exponencial, o apartamento na praia e uma relação de 12 anos.
Mas, no verão de 2023, o vazio instalou-se. No peito, uma dor persistente avisava-a de que o sucesso exterior esvaziara o seu interior. “Não sabia quem era sem nada do que tinha e isso trouxe um desconforto ainda maior”, confessa. Num ato de coragem, pediu uma licença sem vencimento, terminou a relação, colocou a mochila às costas e embarcou rumo à Tailândia. Procurava, tal como disse aos pais antes de partir, “encontrar humanidade outra vez”.
Na Tailândia, o tempo desacelerou e deu lugar a uma metamorfose profunda. Inês estudou Budismo com monges num mosteiro, formou-se como professora de ioga e acabou por ser convidada para trabalhar como psicóloga clínica no Centro Holístico Internacional. Conta-nos que, ali, naquele “outro lado do mundo”, compreendeu que a psicologia tradicional, focada apenas na mente, deixava escapar as cores mais vibrantes da existência. Especializou-se em Terapia Somática, Breathwork e fundou a Humankind, um movimento global para humanizar líderes e organizações. Mais tarde, viajou pelo México, Guatemala, Egito e Peru, iniciando-se na linhagem Q’ero nos Andes para aprender métodos de cura anteriores à própria ciência moderna.
A Tailândia parecia ser a sua casa e o regresso algo distante. Até agora. Foi no Peru, a absorver a sabedoria dos anciões, que a memória dos seus próprios avós de Alcobaça a assaltara. A urgência de regressar às origens fez-se sentir e, nessa semana, recebeu a notícia de que o seu avô faleceu. A vida lembrava-a de que o tempo não espera por ninguém.
Em março, numa paragem planeada de duas semanas em Portugal, o coração já lhe pedia para ficar. Ainda assim, o ego levou-a de volta à sua ilha na Tailândia. Porém, o feitiço quebrara-se: “No dia em que cheguei a casa, na ilha, soube que não devia estar ali”, recorda. “Na Tailândia tudo é fácil e bonito… mas lembro-me de pensar que não queria ter de ir para o outro lado do mundo para poder sentir isso”. E esse pensamento, mudou tudo: Inês percebeu que a sua missão já não era lá fora, mas sim trazer consigo para Portugal os ensinamentos que agora transmite.
De regresso definitivo, a eborense quer construir pontes entre a Ciência e a Espiritualidade, entre o Ocidente e o Oriente, aproveitando a vocação diplomática e de afetos da alma lusitana. E, por isso, prepara-se agora para lançar em solo nacional workshops, imersões, retiros e programas inovadores direcionados a indivíduos e a líderes de empresas. “Quero trazer este conhecimento para que possamos viver e lembrar-nos do que é ser humano. Para que os portugueses não tenham de ir para o outro lado do mundo para se encontrarem, como eu tive”, conclui.
A rapariga que saiu de Alcobaça está de volta, e é outra pessoa, mas ao mesmo tempo, foi sempre a mesma. E como a mãe também sempre lhe disse na infância, “quem é bom no que faz, tem sempre o seu lugar”. E o de Inês, hoje, é Alcobaça, junto dos seus, a mudar mentalidades.








