Quinta-feira, Março 19, 2026
Quinta-feira, Março 19, 2026

Sem “outros” não há inferno

Data:

Partilhar artigo:

Vivemos tempos de insegurança e de perigo, esse grande alimento do medo. Ora, o medo combate-se lutando ou fugindo.

Lutar é, nesta guerra, ser responsável. Fugir é o contrário, é furtar-se à responsabilidade, atribuindo-a aos outros.

E quem são os outros? Os outros são os culpados. E podem ser os que tivermos mais à mão. Os que estiverem na mira, os alvos mais fáceis. Os outros são os velhos, os pobres, os do norte, os do sul, são os jovens, são os de Lisboa. São os ciganos, os que andam de transportes públicos, os que espirram, os que tossem. Os outros são os imigrantes, os africanos, são as crianças, as autoridades, os outros são os que não lavam as mãos e os que não têm onde as lavar…

Região de Cister - Assine já!

São quem, em cada momento, pudermos apontar. Porque o inferno são os outros, porque os outros têm a culpa.

Como Sartre, acredito que são as nossas escolhas que nos definem e que somos livres para as fazer. No entanto os outros, os que nos rodeiam, condicionam essas escolhas e, com elas, a nossa liberdade. Será por isso mais fácil atribuir aos outros todos os males e todas as culpas.  

Como sair desta teia de explicações fáceis, urdida de frases feitas? Como combater o discurso vazio e as suas soluções simples para questões tão complexas como as nossas escolhas e o nosso papel na vida colectiva? Como combater o populismo em tempos de pandemia e de medo?

Só vejo um caminho, que é o de nos vermos como parte deste imenso colectivo que é a humanidade e que, pela primeira vez na sua história vive, em simultâneo, um perigo comum e iminente. Já não se trata de salvar o planeta – que é também é coisa maior, mas parece menos urgente – ou combater a fome em África – que parece estar mais longe – trata-se de proteger milhões de vidas e, com elas, a nossa própria vida.

Como atravessar este conflito sem cair na tentação de encontrar nos outros, nos de fora, os únicos culpados? Só me lembro de uma fórmula, que é a de incluir todos os outros na primeira pessoa do plural. Todos: velhos e novos, fortes e fracos, desempregados e malta das obras, polícias e estudantes, médicos e refugiados. Todos somos nós porque não havendo “outros” só há nós. Sem “outros” não há inferno.

 

AD Footer

Artigos Relacionados

A Casa leva prémio Garrafeira do Ano 2025 para Alcobaça

A Casa, garrafeira situada em plena zona histórica de Alcobaça, conquistou o título de “Garrafeira do Ano 2025”,...

Voluntários recolhem 870 quilos de lixo na Praia das Paredes

Em apenas duas horas, 73 voluntários retiraram 870 quilos de resíduos da Praia de Paredes da Vitória, na...

Município de Alcobaça volta a trocar papel por plantas na cidade e nas freguesias

O Município de Alcobaça volta a promover os “Dias + Verdes”, uma iniciativa dedicada à sensibilização ambiental que...

Atletismo: Beatriz Castelhano convocada para o Campeonato do Mundo

Beatriz Castelhano (Sporting) foi convocada para representar Portugal no Campeonato do Mundo de Pista Curta, que vai decorrer...

Aceda ao conteúdo premium do Região de Cister!