Sábado, Junho 13, 2026
Sábado, Junho 13, 2026

O Tempo para Sempre

Data:

Partilhar artigo:

Na Idade Média não controlávamos o tempo. O sol, e as colheitas, marcavam o nosso ritmo. Depois da revolução industrial ganhámos mais tempo. Hoje, com os telemóveis, o tempo fugiu-nos ao controlo, de novo.

Com 3 anos fui viver uma longa temporada com a minha avó Olívia, perto de Alcobaça. Camponesa, pequena proprietária de uma série de terras, de pequena dimensão, espalhadas entre si, que ela “amanhava” quase sozinha, e quase sem máquinas. O meu avô tinha morrido cedo, brutalmente atropelado (no mesmo fatídico cruzamento de Fanhais/Alcobaça onde continuam a morrer pessoas 50 anos depois, perante a inoperância da Câmara da Nazaré). O instrumento mais desenvolvido que a minha avó tinha era o Baltazar, um burro tão resistente ao trabalho que às vezes era mais fácil ir a pé, entre terras, do que esperar que ele se dignasse a puxar-nos. Foram tempos inesquecíveis. Passávamos os dias juntas, conversávamos muito. Eu passava os dias descalça a abrir com a enxada, que mal segurava, caminhos de rega, que desviava do rio que cursava a casa e o moinho. Ela foi também moleira. Uns dias eu ia fazer companhia às mulheres que no rio lavavam cenouras, e roupa branca, que corava ao sol. Foram-me ainda oferecidos 2 patos, que eu levava ao rio, diariamente. A minha avó era terna e exigente, educadora e amorosa. Os nossos serões terminavam sempre à lareira, conversando, depois de vermos o único momento de televisão, a TV Rural.

A casa dela era um mistério infinito para uma criança – todos os quartos que se enchiam de tios e primos nas férias e nas festas, o sótão, o barracão de lenha, o forno, a arribana, a arrecadação, a capoeira, a eira, as lareiras… Tinha 16 anos quando ela morreu – com um AVC repentino, aos 78 anos, a morte menos dolorosa. Mas foi arrasador. A idade em que estive com ela (agora lendo um pouco mais de psicanálise compreendo-o) criou entre nós um vínculo poderoso de amor. Esse tempo que não controlávamos com máquinas, e em que os telemóveis não existiam, foi o tempo que demos uma à outra. É um tempo que fica para sempre.

Região de Cister - Assine Já!
AD Footer
Artigo anterior
Próximo artigo

Artigos Relacionados

Quatro histórias, uma certeza: a arte pode (mesmo) salvar

Há coisas sobre as quais nos detemos em busca de uma explicação, mas que teimam não ter uma...

Dezenas de pessoas marcaram presença na inauguração pública do Centro Cultural de Turquel

O novo Centro Cultural de Turquel (CCT) foi inaugurado na tarde do passado sábado, no âmbito das Festas...

Conclusão das obras no IC9 previstas para setembro

Os constrangimentos provocados pelo encerramento do IC9 são uma realidade que tem assolado diariamente os habitantes do concelho...

Projeto de aluno da EPN procura transformar a mobilidade em Portugal

Uma cadeira de rodas de 180 quilos e um País com lacunas profundas ao nível da acessibilidade. Foi...

Aceda ao conteúdo premium do Região de Cister!