Domingo, Setembro 27, 2026
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O Tempo para Sempre

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Na Idade Média não controlávamos o tempo. O sol, e as colheitas, marcavam o nosso ritmo. Depois da revolução industrial ganhámos mais tempo. Hoje, com os telemóveis, o tempo fugiu-nos ao controlo, de novo.

Com 3 anos fui viver uma longa temporada com a minha avó Olívia, perto de Alcobaça. Camponesa, pequena proprietária de uma série de terras, de pequena dimensão, espalhadas entre si, que ela “amanhava” quase sozinha, e quase sem máquinas. O meu avô tinha morrido cedo, brutalmente atropelado (no mesmo fatídico cruzamento de Fanhais/Alcobaça onde continuam a morrer pessoas 50 anos depois, perante a inoperância da Câmara da Nazaré). O instrumento mais desenvolvido que a minha avó tinha era o Baltazar, um burro tão resistente ao trabalho que às vezes era mais fácil ir a pé, entre terras, do que esperar que ele se dignasse a puxar-nos. Foram tempos inesquecíveis. Passávamos os dias juntas, conversávamos muito. Eu passava os dias descalça a abrir com a enxada, que mal segurava, caminhos de rega, que desviava do rio que cursava a casa e o moinho. Ela foi também moleira. Uns dias eu ia fazer companhia às mulheres que no rio lavavam cenouras, e roupa branca, que corava ao sol. Foram-me ainda oferecidos 2 patos, que eu levava ao rio, diariamente. A minha avó era terna e exigente, educadora e amorosa. Os nossos serões terminavam sempre à lareira, conversando, depois de vermos o único momento de televisão, a TV Rural.

A casa dela era um mistério infinito para uma criança – todos os quartos que se enchiam de tios e primos nas férias e nas festas, o sótão, o barracão de lenha, o forno, a arribana, a arrecadação, a capoeira, a eira, as lareiras… Tinha 16 anos quando ela morreu – com um AVC repentino, aos 78 anos, a morte menos dolorosa. Mas foi arrasador. A idade em que estive com ela (agora lendo um pouco mais de psicanálise compreendo-o) criou entre nós um vínculo poderoso de amor. Esse tempo que não controlávamos com máquinas, e em que os telemóveis não existiam, foi o tempo que demos uma à outra. É um tempo que fica para sempre.

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