Cresce-se a ouvir que sentir dor é normal, em vários momentos e áreas da vida, mas num ganha particular relevância: na dor menstrual. “Isso é normal.” “Logo passa.” “Tens de ser forte.” São expressões proferidas tantas e tantas vezes. Palavras ditas com a melhor das intenções, por mães, avós, amigas, médicos, mas que, durante décadas, contribuíram para silenciar uma dor real, legítima, e, muitas vezes, devastadora. Cresce-se numa cultura de normalização de tipo de dor, como se fosse algo intrínseco à mulher. Mas, e se afinal, essa dor não fosse assim tão normal? A endometriose pode ser a causa.
Este conteúdo é apenas para assinantes
É uma doença que não se vê. Não aparece no rosto, não mancha a pele, não deixa marcas imediatas para o mundo exterior. Mas para quem a vive por dentro, a sua presença é inconfundível e, muitas vezes, incapacitante.
Susana Fonseca, presidente da Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose e Ameniose (MulherEndo), explica: “A endometriose é uma doença em que um tecido semelhante ao que existe dentro do útero cresce em zonas onde não seria expectável, provocando inflamação e consequentemente dor. Esse tecido pode afetar vários órgãos, como ovários, intestinos, bexiga, entre outros”.
Trata-se de uma condição crónica, que tende a responder em sincronia com o ciclo hormonal – o que significa que, a cada menstruação, o tecido inflamado sangra também, mas sem saída. O resultado é dor. Muita dor. E, quando não tratada atempadamente, pode causar consequências que vão muito além do sofrimento imediato, até porque a endometriose é uma das principais causas de infertilidade nas mulheres em idade reprodutiva.
Os números impressionam. Em Portugal, estima-se que a endometriose afete uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva, o que se traduz em centenas de milhares de pessoas. No entanto, é uma doença claramente subdiagnosticada: muitas mulheres esperam entre sete a dez anos até obterem uma resposta concreta para aquilo que sentem.
Mas a grande questão é: porquê tanto tempo? Susana Fonseca aponta vários fatores: “Existe ainda uma normalização das dores menstruais intensas, o que leva muitas mulheres a acreditarem que aquilo que sentem é ‘normal’. Isso faz com que demorem mais tempo a pedir ajuda”, justifica.
Os sintomas variam muito de mulher para mulher: dor pélvica crónica, cólicas intensas, dor durante a relação sexual, ao urinar ou ao evacuar, fadiga persistente e dificuldade em engravidar são alguns dos mais comuns. É uma doença de mil rostos, mas que teima em não ser vista: “No fundo, falha muitas vezes a sensibilização, o reconhecimento precoce dos sintomas e o encaminhamento atempado para especialistas”, resume a presidente da associação com sede legal nos Pousos, em Leiria.
Uma das perguntas mais frequentes de quem recebe o diagnóstico é também uma das mais difíceis de responder: “isto tem cura?”. A resposta honesta é dura: não. A endometriose não tem cura. Mas Susana Fonseca é clara no que isso significa: “Mais do que uma cura, o que existe é uma gestão contínua da doença, que pode incluir medicação, cirurgia, fisioterapia pélvica, tratamentos de procriação medicamente assistida, alterações no estilo de vida, nomeadamente na alimentação e suplementação, prática de exercício físico e higiene de sono”. Ainda assim, é uma doença que requer acompanhamento ao longo da vida, e que merece ser tratada com seriedade.

Madalena Valentim, da Benedita, tem 26 anos. Descobriu que tem endometriose em maio de 2025, na primeira consulta de ginecologia. Um “achado” que a própria descreve como inesperado: durante uma ecografia endovaginal, a médica detetou um foco de endometriose no interior do ovário direito. “Sinto que foi uma sorte ter conseguido descobrir tão cedo e de ter tido uma médica que sabia detetar estes focos em ecografia”, conta Madalena ao REGIÃO DE CISTER. Uma sorte que, na realidade, é ainda uma exceção, e não a regra, no percurso de muitas mulheres.
Olhando para trás, a jovem reconhece agora sinais que sempre existiram, mas que aprendeu a normalizar: dores menstruais intensas nos primeiros dias, que foram piorando com a idade, dores durante a ovulação e durante a relação sexual.
Iniciou de imediato o tratamento com uma pílula de toma contínua, e na reavaliação realizada em novembro de 2025, o foco já tinha reduzido consideravelmente de tamanho. Uma evolução encorajadora para quem ainda está no início de uma longa aprendizagem.
Emocionalmente, a jovem descreve os primeiros meses como confusos. “Apenas sabia que era para o resto da vida”, conta. Mas foi aceitando e conhecendo mais sobre a patologia, sobretudo através da partilha com outras mulheres na mesma situação. O que mais a preocupa, hoje, é a incerteza sobre o futuro, como a doença poderá evoluir e que impacto terá na sua vida.

Patrícia Raimundo, de Coz, tem 37 anos e uma vida que reconhece como plena. No entanto, há uns anos, a plenitude parecia difícil de alcançar: tinha 24 anos quando foi diagnosticada com endometriose. Até aí, levava uma vida que a própria descreve como normal, embora sempre tivesse convivido com dores menstruais acentuadas. Foi quando as dores se tornaram mais difíceis de suportar, e quando começou a sentir dor intensa na bexiga ao urinar, que decidiu procurar ajuda. A endometriose tinha-se alojado precisamente na bexiga, o que tornava os sintomas particularmente evidentes e dolorosos.
O médico de família encaminhou-a para a valência de ginecologia, no Hospital de Leiria, onde, numa única consulta e após descrever os sintomas, obteve a resposta. “Nunca tinha ouvido falar desta doença, mas a médica esclareceu-me de imediato”, recorda. Foi então direcionada para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde uma equipa especializada a acompanhou.
Num primeiro momento, tentou-se controlar a doença com seis meses de pílula contínua, para suspender a menstruação e avaliar a evolução. Quando a abordagem se revelou insuficiente, a cirurgia foi a solução.
Os anos que mediaram o diagnóstico e a cura foram os mais difíceis da sua vida. “Desde as noites mal dormidas com dores, ao desconforto no trabalho pelas dores intensas”, conta. Trabalhava como comercial e chegou a interromper visitas a clientes porque as dores eram insuportáveis. “Recordo-me de pensar que, se fosse para viver sempre assim, preferia morrer, tal era o desespero de estar constantemente com dor”. São lamentações impactantes, mas reais.
Aos 28 anos, Patrícia foi operada. A recuperação foi exigente, mas correu bem. E quando lhe disseram que a doença estava controlada, o alívio chegou. Até hoje, não voltou a ter sintomas. E a quem está agora no início deste percurso, como é o caso de Madalena, Patrícia deixa um conselho: “Sejam persistentes e procurem respostas concretas. É possível voltar a ter uma vida normal”.
A endometriose não escolhe histórias de vida ou percursos. Chegou a Madalena de surpresa, aos 26 anos, numa primeira consulta. Chegou a Patrícia com 24, disfarçada de uma dor que foi crescendo até se tornar insuportável. Chega, todos os dias, a centenas de mulheres que ainda não sabem o nome daquilo que sentem.
Mas existe um fio condutor entre todas as histórias: o silêncio que as precedeu. A dor que foi normalizada. As palavras que calaram em vez de ajudar. É tempo de falar. E, acima de tudo, é tempo de acreditar nas mulheres que afirmam que a dor é demasiada, acreditar que há vida plena e sem dor do outro lado deste diagnóstico.
Como diz Susana Fonseca, presidente da MulherEndo, a todas as mulheres que ainda hesitam em pedir ajuda: “Ouçam o vosso corpo e não ignorem a dor. Dores intensas e incapacitantes não são normais e merecem ser avaliadas. Não desistam, mesmo que nem sempre seja fácil obter respostas imediatas. E, acima de tudo, lembrem-se que não estão sozinhas”.


